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    INVICTUS

    Não fosse por Clint Eastwood, seria apenas um épico cheio de choradeira.<br />
    Por Heitor Augusto
    20/01/2010

    Carreata com Nelson Mandela atravessa uma larga rua. A câmera a segue e focaliza os dois lados da via. De um, jovens brancos e bem vestidos praticam rúgbi sob a batuta de um treinador. Do outro, negros miseráveis saldam com euforia o presidente recém eleito. O técnico diz para os alunos tomarem cuidado, pois os terroristas – negros – tomaram conta do país. Corta.

    Clint Eastwood é tão genial que, só com a sequência inicial de Invictus, explica cinematograficamente o bê-a-bá da situação política pós-apartheid na África do Sul. Porém, de um diretor que fez o melhor filme de 2009, Gran Torino, eu esperava mais. Confesso.

    Clint conduz seu filme com dois tons. O primeiro é distanciado da situação. Somos observadores do dia a dia de Mandela (o perfeito Morgan Freeman), sua relação com as expectativas dos negros, sua posição de não buscar vingança. Observamos e observamos, Clint não quer que nos emocionemos demais com as atitudes do presidente.

    Esse distanciamento muda na metade do filme. Mandela sabe a força do rúgbi no país e usa a seleção como espelho para o seu projeto de reconciliação. Nesta tarefa, conta com a ajuda do capitão dos Springboks, François Pienaar (Matt Damon). O objetivo é vencer a Copa do Mundo da categoria.

    Nesses momentos, Clint joga o distanciamento para escanteio, nos pega pelo pescoço do sentimentalismo e, desesperado, quer nos dizer “está vendo como é possível andar lado a lado sem segregação?”. Aí vale tudo: câmera lenta, abusar das cores quentes, frases de efeito, cantos de ternura. Óbvio que ele consegue emocionar. Mestre do cinema narrativo, usa o tema da superação, tão caro a qualquer um de nós, para nos convencer, ao menos por minutos, de que é possível. Doce utopia de um cineasta extremamente humano.

    Se não fosse Clint Eastwood, Invictus seria apenas um épico arrasa corações. Mas, existem outros momentos que o filme traz a mesma mensagem de união sem nos convocar às lágrimas. Na sala ao lado à presidencial estão os guarda-costas de Mandela, negros e brancos, com pavio curto. Mas há um momento em que a humanidade fala mais alto e eles deixam o coração falar, não o racismo. Cena conduzida com a necessária sobriedade e o bem-vindo humor.

    Morgan Freeman é Mandela, assim como Val Kilmer é Jim Morrison, Marion Cotillard é Piaf e Michael Pitt é Kurt Cobain. É uma honra vê-lo em cena como o líder, discutindo com sua assessora a importância do rúgbi, mostrar fraqueza com a distância da família, movimentar-se em cena. Matt Damon, de correta interpretação e personagem coadjuvante, serve de escada para Freeman.

    À exceção dos dois figurões, não pode passar despercebida a interpretação de Adjoa Andoh, a assessora do presidente. A atriz britânica, presença raríssima no cinema, fala com os olhos e tem uma relação ora simbiótica, ora conflituosa com Freeman.

    Ainda acho que, como diretor, Clint acerta mais quando é equilibrado e sério, mesmo quando faz filmes sobre uma jornada de superação ou de transformação, temas emotivos. O que isso quer dizer? Que logo após a sessão de Invictus, é provável que o final do filme fique na cabeça. Mas, ao longo dos dias em que ele vai sendo digerido, os momentos em que Nelson Mandela desfila como personagem marcam mais que a choradeira do jogo-chave da seleção.