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    JARDIM EUROPA

    Filme faz retrato crítico, mas é prejudicado pelo exagero
    Por Gustavo Assumpção
    23/09/2014

    Logo na primeira cena de Jardim Europa uma família reclama do preço do IPTU. A histeria da sequência é sintomática: falidos, eles ainda moram em um bairro nobre de São Paulo, sonham em manter o estilo de vida que um dia ostentaram e têm dificuldades em se livrar de velhos hábitos.

    A decadência é tema comum na ficção e o diretor uruguaio Mauro Baptista Vedia se debruçou sobre a elite paulistana para criar uma história com viés crítico, mas que acaba pecando pelo exagero. De origem teatral, Vedia traz muito de sua experiência para o projeto, que acaba marcado por atuações histéricas.

    Essa teatralidade tão evidente torna o filme por vezes irritante, principalmente porque alguns atores parecem não ter achado o tom em suas interpretações. Em uma das sequências que melhor exemplificam esse descompasso a matriarca Eleonora (Cinthia Zaccariotto) relembra o passado e, embriagada, sai pela casa cantando Daqui Não Saio (sim, a marchinha). O que poderia ser uma cena tragicômica, torna-se uma longa e contrangedora sequência que nada diz.

    Há um mosaico amplo de tipos e personagens, mas o diretor também não consegue aprofundá-los. Mesmo divididos em dois eixos principais - a família aristocrata em queda e o dono de um sebo e sua irmã perturbada -, o longa não consegue criar um retrato que supere o estereótipo. A dondoca consumista, os filhos folgados, o pai alcóolatra, tudo é representado de maneira tão horizontal que fica difícil manter qualquer interesse.

    Jardim Europa talvez exagere para tornar esses personagens dignos de nosso riso, algo que consegue em vários momentos. Ao rirmos dessas caricaturas estamos rindo desses tipos, tão alienados e preocupados com a aparência externa que pouco sabem sobre o mundo em que vivem. 

    É de se elogiar o timing do projeto, que estreia justamente no momento em que um grupo dos moradores do bairro pede o fechamento do MIS, Museu da Imagem e do Som, um dos mais visitados da cidade. A falta de consciência de classe tão presente nos personagens de Jardim Europa é um retrato e um espelho de muitos dos comportamentos típicos da elite da cidade mais rica do país. Promover esse debate por meio do cinema é digno de elogios.