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    JAUJA

    Apesar de interessante e bela, obra também é frustrante
    Por Daniel Reininger
    24/06/2015

    O argentino Lisandro Alonso não tem a intenção de fazer filmes para públicos diversos, quem viu Liverpool sabe bem disso. E o diretor não foge a regra em Jauja, primeira obra do cineasta a contar com atores profissionais. Embora tenha mais diálogos do que, possivelmente, toda a filmografia anterior de Alonso junta, o longa mantém seu estilo com tempos estendidos, cenas desprovidas de ação, pouca ou nenhuma trilha sonora e planos abertos.

    Premiado na seleção Un Certain Regard no último Festival de Cannes, possui trama simples: Gunnar Dinesen (Viggo Mortensen) é um colono dinamarquês que se torna engenheiro do exército argentino durante a conquista do deserto, campanha genocida pela Patagônia, na qual o objetivo final era exterminar os indígenas. Ele viaja pelo local com sua filha, cuja beleza desperta sentimentos diversos nos homens que o acompanham. Eventualmente, ela foge apaixonada e o pai parte em uma violenta busca solitária para encontrá-la.

    A premissa e o destino final não interessam a Alonso, a questão aqui é a jornada. No início, acompanhamos a vida cotidiana no estranho posto avançado, à margem da civilização. É uma realidade assustadora e claustrofóbica, sensação reforçada pelo formato 4: 3 com bordas ligeiramente arredondadas e cores saturadas. Quando Gunnar parte em busca de sua filha, o destaque são as paisagens da bela região da Patagônia e o sentimento de solidão e obsessão do protagonista.

    O foco do diretor não é a narrativa, então falar que ela não se desenvolve de forma satisfatória seria injustiça, afinal, o longa pretende trabalhar outras linguagens cinematográficas, como o som e a imagem. Questões como família, amor, colonização e genocídio indígena aparecem de forma implícita, sem que seja preciso destacá-las na tela. O problema é o distanciamento dos personagens, Alonso não parece querer que nos importemos com nenhum deles, tanto que evita closes ou planos fechados, mesmo durante diálogos, e isso causa estranheza e pode atrapalhar a atmosfera de fábula.

    Fantasia e realidade se misturam ao longo de toda a obra, mas é o final que arranca de vez o espectador do lugar comum. Tudo muda de repente, acontecimentos aparentemente aleatórios tomam conta e a atmosfera mágica criada até então é destroçada. O final não pode nem mesmo ser considerado aberto, parece ser algo quase aleatório – nem mesmo Alonso soube explicar durante a coletiva de imprensa em que estávamos presentes. É praticamente uma tela em branco, na qual cada um pode criar seu próprio final como bem entender.

    Definitivamente, Jauja é uma obra interessante, bela e impactante, mas também frustrante e incômoda. É um filme para os fãs do cineasta ou para aqueles em busca de algo realmente diferente, que querem ser surpreendidos para sair de suas zonas de conforto. Com quase duas horas de duração, a obra está mais para um lindo quadro em movimento e, por isso, é preciso disposição para encará-lo. Ame ou odeie o seu formato, a realidade é que Jauja é uma experiência lúdica que, no mínimo, precisa ser sentida pelos amantes do cinema.