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    JUAN DOS MORTOS

    Filme usa zumbis para satirizar regime de Fidel Castro
    Por Roberto Guerra
    19/06/2013

    Desde os tempos do mestre George Romero a figura do zumbi é usada como metáfora à deterioração da sociedade de consumo. Nesta interessante comédia cubana os mortos-vivos em decomposição são, ao contrário, uma alegoria ao socialismo de estado decadente. Ao "novo homem" preconizado pela Revolução Cubana que, segundo revelou o diretor Alejandro Brugués a este crítico, é um conceito político que perdeu completamente o significado para a população do país hoje.

    Filmado com capital espanhol e equipe mista, Juan de los Muertos fustiga justamente a imagem desse homem moldado pelo espírito revolucionário. Um diálogo logo no início do filme deixa claro ao espectador o caráter e disposição dos heróis. Pescando num bote improvisado, um deles sugere aproveitar a embarcação e fugir para Miami. No que o outro rebate de pronto: "Em Miami a gente vai ter de trabalhar. Em Cuba, basta pescar".

    Juan e seu melhor amigo, Lazaro, são dois típicos vagabundos, perfil inimaginável para protagonistas de um longa cubano anos atrás. Logo após travarem o diálogo acima, pescam um zumbi. Não demora muito para os mortos-vivos se espalham por Havana chegando mesmo a interromper uma reunião do Comitê de Defesa da Revolução. Não demorar muito para o governo classificar a invasão como uma investida imperialista.

    Aproveitando-se do caos, os oportunistas Juan e Lazaro viram empreendedores e, ao melhor espírito de livre-iniciativa, montam uma empresa de extermínio de zumbis. Passam, então, a vender proteção aos moradores desesperados, que deve ser paga em dólares, claro. Nada de pesos cubanos.

    Como o leitor já pôde perceber, o enredo de Juan de los Muertos é só desculpa para satirizar diferentes aspectos da realidade cubana. Os zumbis que perambulam por Havana são dissidentes treinados, dirigentes institucionais e a população bitolada por décadas de catecismo revolucionário. A sátira é hilária, mas igualmente contundente ao revelar um país que clama por ser contaminado pela modernidade, pelo vírus zumbi que os colocará em parelha com o resto do mundo.

    Uma ressalva: o subtexto e a crítica social são fortes, mas em nenhum momento Juan de los Muertos deixa de divertir por isso. Bons filmes de zumbi costumam ter contagens elevadas de mortes e Juan de los Muertos não economiza. O baixo orçamento também não prejudica em nada a produção, que tem excelente e criativo trabalho de direção de arte e não fica nada a dever aos melhores filmes do gênero.