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    Impactante, Judas e o Messias Negro faz espectador querer lutar por um mundo melhor ao sair do cinema

    Longa conta a história de Fred Hampton e o partido dos Panteras Negras
    Por Daniel Reininger
    25/02/2021 - Atualizado há 3 meses

    Impactante, Judas e o Messias Negro retrata a vida de um homem que poderia mudar o mundo, mas foi impedido por uma conspiração envolvendo o alto escalão dos EUA. Uma história real contundente, com eventos relevantes até hoje. É aquele tipo de filme que faz espectador querer lutar por um mundo melhor ao sair do cinema.

    Um dos principais concorrentes do Oscar 2021, o longa te leva de volta ao passado, até uma época em que tudo estava em jogo e as pessoas achavam que podiam fazer a diferença no mundo. Esse poderoso drama político conta a história do líder dos Panteras Negras de Illinois, Fred Hampton (Daniel Kaluuya), e o informante do FBI William O'Neal (Lakeith Stanfield), que forneceu o layout do apartamento de Hampton para a operação policial que o assassinou. 

    O longa detalha um cenário político terrível no final dos anos 1960, com opressão policial e do estado, enquanto endeusa o revolucionário Hampton e mostra o traidor O’Neal cada vez mais mergulhado em paranoia.

    Como filme, Judas e o Messias Negro é incapaz de ambientar perfeitamente o que foram os anos 60, o partido dos Panteras Negras e a importância de Hampton. Precisaria de uma série para conseguir abordar tudo isso com aprofundamento. Entretanto, o que consegue mostrar em suas duas horas é significativo, capaz de passar a ideia da importância de seu protagonista e do incômodo que seu discurso revolucionário causava ao governo dos Estados Unidos.

    Até por isso, o longa se destaca principalmente pelas performances de seus atores. O astro de Corra!, Kaluuya, convence como Hampton e Stanfield manda muito bem como o traidor O'Neal. Os personagens são extremamente humanos e emocionalmente complexos.  

    Dito isso, a relação dos dois personagens poderia ser um pouco mais aprofundada, porque, embora os dois sejam amigos e companheiros de luta, o longa não procura aproximá-los além de colegas de movimento.

    Mesmo assim, é depois que O’Neal se junta aos Panteras que o foco do filme muda completamente para a vida de Hampton, cuja força Kaluuya reproduz muito bem, enquanto caminhando numa linha tênue entre a realidade e a dramatização. 

    Hampton era um jovem líder que falava rapidamente e possui um claro discurso anticapitalista. Kaluuya captura essa mesma energia e coloca um enorme peso em cada palavra. Vale apontar que o ator tem um talento nato para atuação não-verbal e isso ajuda demais para dar vida a Hampton, sempre capaz de dominar o ambiente em que se encontra.

    Na trama, o FBI e o governo norte-americano são os grandes antagonistas ao oprimir O'Neal e o obrigando a agir contra Hampton. O filme deixa claro que, apesar da visão do governo, o Partido dos Panteras Negras não agia como um grupo terrorista e sim procurava proteger e ajudar sua comunidade. Tanto que o grupo existe até hoje e continua sua missão de promover um lugar seguro para os ignorados pelo sistema.

    Com personagens cativantes como Hampton, sua namorada Deborah Johnson (Dominique Fishback) e outros camaradas como Jimmy Palmer (Ashton Sanders), Jake Winters (Algee Smith) e Judy Harmon (Dominique Thorne), o filme constrói um grupo de pessoas envolvente, com personagens realistas e mostra um quadro de paixão e camaradagem. Como consequência, o espectador é contagiado pela causa dos Panteras Negras e com a vontade de mudar o mundo e acabar com as injustiças.

    Do ponto de vista histórico, o filme procura apresentar fatos da época, mas sempre foca em mostrar o movimento dos Panteras Negras como algo interessado no bem estar da comunidade, bem diferente da ideia de terroristas, como muitos os veem. O que faz a traição de O'Neal algo ainda mais difícil do público engolir. A atuação de Lakeith Stanfield é primorosa em mostrar seu desespero e culpa, ao ponto quase de gerar simpatia do público por sua situação desesperadora.

    O longa ainda é tecnicamente primoroso, com ambientes realistas e coloridos, porém desgastados, como que para reforçar a exaustão de uma luta sem fim. A fotografia é capaz de capturar a força de cada momento, seja intimista com closes e luz mais baixa ou um discurso inflamado, com tomadas abertas e luminosidade alta.

    Judas e o Messias Negro é um filme marcado por sangue, dor e desespero, mas também esperança. É a luta de um grupo de pessoas por um mundo melhor para sua comunidade, mas também sobre os obstáculos colocados contra eles pelo sistema. As motivações dos personagens são claras e é fácil entender até mesmo o ato mais extremo. Com uma narrativa contagiante,  o longa conta uma história poderosa, que nos lembra como é importante nos levantar e lutar pelo que consideramos certo.