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    JULIETA

    Filme está longe de ser o trabalho mais impactante do diretor
    Por Daniel Reininger
    04/07/2016

    Pedro Almodóvar decidiu adaptar três histórias da vencedora do Pulitzer, Alice Munro, sobre uma mulher chamada Julieta e o mistério sobre sua vida. O diretor mudou a história para Madrid e colocou sua assinatura na obra, como cores fortes e uma pitada de melodrama, para melhor explorar a vida de uma mulher ao longo de três décadas. Consegue criar uma obra interessante, porém sem o impacto pretendido.

    Na trama, Julieta (Emma Suarez) tem por volta de 50 anos e se prepara para mudar para Portugal com seu parceiro, Lorenzo. Pouco antes de ir embora, a mulher cruza com Bea, amiga de infância de sua filha. O encontro desestabiliza a protagonista e começamos a entender o motivo quando o longa volta 30 anos no passado para apresentar, em ordem cronológica, os eventos responsáveis por levar Julieta (interpretada por Adriana Ugarte em sua versão jovem) até aquele momento.

    O longa representa um retorno bem-vindo do cineasta à narrativa focada na visão feminina, que deu a Almodóvar seus maiores sucessos. Entretanto, Julieta está longe de ser o trabalho mais impactante ou divertido do diretor. Ao evitar comédia e apostar num drama denso, o cineasta cria uma obra pesada, sem muito espaço para momentos leves ou até mesmo catarse. Ainda assim, a mão de Almodóvar está clara ao longo de todo filme, especialmente no uso das cores dos ambientes.

    Na verdade, Almodóvar construiu um mistério pouco convencional, onde a protagonista é o enigma a ser decifrado e ela mesma tenta entender os acontecimentos responsáveis por seu sofrimento, enquanto a trama revela lentamente fatos e tragédias que marcaram sua vida para sempre. Quando a história volta a focar a Julieta madura, a encontramos cada vez mais abalada.

    Nesse ponto, a trama parece que vai começar a seguir por um caminho mais positivo, um que revele melhor as motivações dessas décadas de sofrimento ou, pelo menos, proporcione a necessária catarse. Entretanto, pouco é desenvolvido de fato nesse final e, sem proporcionar um encerramento necessário, o filme simplesmente acaba sem nunca fazer o drama de Julieta nos tocar de fato e sem resolver completamente os mistérios de sua vida.

    Para o longa funcionar mesmo diante desse problema é crucial a boa atuação tanto de Ugarte quanto de Suarez. As duas representam muito bem as fases da vida de Julieta, Ugarte é radiante e sexy, enquanto Suarez capta a complexidade e tristeza da personagem após muito tempo no limbo. As atuações das duas atrizes são ótimas e realmente ajudam a produção a parecer mais interessante do que realmente é.

    Julieta é um bom filme de Almodóvar, mas está longe de seus melhores trabalhos. O diretor não deixa de lado suas características, mesmo ao adaptar uma obra mais delicada como o trabalho de Munro, o que é algo positivo. Porém, a forma como a narrativa se desenvolve atrapalha a ligação emocional entre espectadores e protagonista e, embora seja interessante a narrativa desvendar lentamente o motivo de seu sofrimento, um pouco mais de agilidade ajudaria a causar um maior impacto.