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    KÁTIA

    Filme retrata rica personagem, mas não vai a fundo
    Por Roberto Guerra
    26/05/2013

    O travesti Kátia Tapety é o personagem central do documentário que leva seu nome, primeiro longa-metragem da diretora Karla Holanda. Tapety foi o primeiro travesti a ser eleito a um cargo político no Brasil. Por três vezes seguidas foi a vereadora mais votada de um pequeno município nos rincões do Piauí e exerceu também o cargo de vice-prefeita entre 2004 e 2008.

    No filme, ela é apresentada em sua rotina em Colônia do Piauí, município localizado numa das regiões mais religiosas e conservadoras do Estado. Nos primeiros minutos do longa a vemos cuidar com habilidade dos bichos de seu sítio (cabras, porcos e vacas), experiência que adquiriu graças ao preconceito do pai, que a manteve no campo, longe dos estudos na vizinha Oeiras, para não provocar vergonha à família tradicional.

    Kátia vai construindo aos poucos o perfil da personagem, com quem a diretora conviveu ao longo de 20 dias, acompanhando sua rotina e mostrando, entre outras coisas, sua luta para oficializar a adoção de uma menina, as viagens para eventos de temática GLBT, a relação com parentes e, até mesmo, sua participação na improvável Parada Gay que criou na cidade para incentivar a tolerância e dirimir o preconceito na região.

    Trata-se de um filme sustentado menos nos depoimentos, dela e de outros - o que poderia ajudar o público a criar um perfil mais exato da personagem - e mais na observação de sua rotina, que ganha contornos de performance quando, nitidamente, se nota que Kátia - dona de uma personalidade forte e exuberante - começa a interpretar para a câmera. Neste ponto a documentarista faz seu filme perder fôlego, pois o espetáculo assume papel de destaque e a diretora não opõe resistência, alimentando o que deveria evitar para se alcançar maior autenticidade.

    Não se pode negar que Kátia é uma grande personagem e sua história de vida é atraente o suficiente para ser tema de um filme. O incômodo em Kátia, o filme, é que este se posiciona como mero espectador de alguém que enxerga o desenrolar de sua vida em sociedade como uma grande representação, da qual de figurante passou a protagonista. O fascínio diante dessa personagem multifacetada e de vivência rica fez Karla Holanda apontar sua câmera para seu mundo apenas como a documentarista que retrata, esquecendo-se da documentarista que analisa e filtra.