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    KICK-ASS - QUEBRANDO TUDO

    Extremamente divertido, mas foge de qualquer abordagem de fôlego sobre alienação da juventude<br />
    Por Heitor Augusto
    16/06/2010

    É curioso que um filme como Kick-Ass – Quebrando Tudo tenha sido produzido nos anos 2000. Afinal, é uma montanha de sequências e personagens politicamente incorretos, que parecem saídos dos anos 80, especialmente pela falta de pudor com a violência ou pelas crianças com extenso vocabulário de palavrões.

    Kick-Ass – Quebrando Tudo é um filme-contradição. Os personagens têm uma revolta difusa, que interrompem na metade uma tomada de posição frente ao mundo. Eles olham para o lado e percebem que tem alguma coisa muita errada, uma falta de movimento em relação ao hoje. Mas a meneira que encontram para agir é a mais adolescente, escapista e alienada: vestir uma roupa e se tornar super-herói.

    Isso porque é a história de um perfeito loser, Dave (Aaron Johnson), garoto banal e desinteressante. A questão de sua vida é: se os super-heróis como Homem-Aranha são tão populares, por que ninguém se inspira neles e vai às ruas salvar o mundo? Nossa, que questão séria! Uma interrogação que permitiria falar de comodismo, descrença no discurso político, ação coletiva, culto ao individualismo, realização no consumo.

    Essa escolha provavelmente desembocaria em um filme mais sombrio, sério, que misturaria ação e reflexão. Porém, Matthew Vaughn decidiu realizar o oposto disso e fazer um filme divertido, pop, rápido e para ser consumido com pipoca e refrigerante.

    De fato, consegue. Kick-Ass – Quebrando Tudo vive da mistura híbrida entre o que o espectador espera e o que se concretiza. Por exemplo: Dave, ou Kick-Ass, é um super-herói de mentira, que não tem muita prática no ofício, apenas o otimismo e a inocência necessária. Quem o ajuda são dois especialistas: Big Daddy (interpretado com cinismo por Nicolas Cage), o pai, e Hit Girl (Chloe Moretz), a filha.

    Uma verdadeira relação, amorosa, repleta de afeto. Num filme que obedece as convenções, no dia de seu aniversário ela seria presenteada por uma boneca, uma roupa, uma viagem ou coisa do gênero. Mas, como é um filme politicamente incorreto, Big Daddy dá um verdadeiro trabuco para Hit Girl.

    Outro exemplo de momento divertido criado com o ruído de elementos conflitantes associados: para arrancar uma informação importante, a dupla coloca um motorista pressionado por uma escavadeira. Quando conseguem o que querem, decidem matá-lo simplesmente espremendo-o. Num filme normal, ouviríamos um rock embalando a cena mas, para perturbar, Vaughn escolhe música classe!

    Momentos de ruído são, de longe, o que há de mais divertido em Kick-Ass – Quebrando Tudo. Misturas que derrubam nossas expectativas a respeito da ideia de herói, vilão e mocinha. Porém, o filme tinha potencial para ir muito além se não quisesse ser cool em todos os takes – espírito presente na HQ na qual o filme é baseado.

    Opção de Vaughn. Como filme de ação e pancadaria, praticamente irretocável. De certa forma, Kick-Ass – Quebrando Tudo é um retrato de parte da juventude: existe a percepção de que algo está errado, mas que encontra abrigo fora do mundo real, quer tomar Coca-Cola e let’s kick a couple of asses. Divertido, mas pára por aí.

    Em tempo: quem é fã de quadrinhos e se identifica com a vontade de vestir uma roupa e se tornar super-herói, há um bom curta-metragem brasileiro sobre o tema, Super-Herói Fora de Série, que trabalha artesanalmente com o mesmo argumento de Kick-Ass – Quebrando Tudo