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    KURT COBAIN - RETRATO DE UMA AUSÊNCIA

    <p>Entrevistas eletrizantes e um retrato criativo de um personagem contradit&oacute;rio</p>
    Por Heitor Augusto
    30/07/2009

    Na verdade, quem for assistir a Kurt Cobain – Retrato de Uma Ausência com a ideia de colocar o músico sob um selo “disso” ou “daquilo” vai, no bom dito popular, cair do cavalo.

    O documentário de AJ Schnack é simples. Voz e imagem. O áudio é apenas de Cobain, que fala sobre absolutamente tudo com uma organização caótica. As imagens são as captadas pelo diretor nos cenários descritos pelo músico: Aberdeen, a cidade natal; Olympia, onde a música começa acontecer com força; e Seattle, explosão musical e morte.

    As entrevistas de Cobain são frutos de mais de 25 horas de fitas gravadas pelo jornalista Michael Azerrad, editadas no livro Come As You Are: The Story of Nirvana. O roteiro é cronológico, abarcando desde as memórias do músico na infância, a primeira guitarra, a ausência paterna, os primeiros namoros, o vazio e por aí vai. À primeira vista, pode parecer muito esquemático. Aguarde, pois não é.

    Especialmente devido à personalidade do líder do Nirvana. Cobain é muito, muito contraditório, comportamento refletido constantemente pelo filme. Em um momento, ele está empolgado com a cena cultural de Olympia e, repentinamente, mostra enjoo e preguiça do que considera mesmice. Depois, destila um ódio gratuito com Seattle, mas se amarra na ideia de ir para lá. Contradição após contradição, situação que deixa o espectador completamente sem chão. É difícil formar uma opinião sobre Cobain. Esta é a principal energia do filme.

    Em determinado momento, todas as energias de sua vida se voltam para a busca do punk rock verdadeiro, puro. Em outro, ele flerta com a ideia do sucesso, da popularidade, com a mistura de elementos pop com o som sujo e grunge. O Cobain de Kurt Cobain – Retrato de Uma Ausência é híbrido.

    Schnack não é cômodo e busca algo além das entrevistas. As imagens tentam ser tão eletrizantes como a explosão das falas do músico. Óbvio que Cobain é muito mais interessante, mas o diretor vai fundo em tentar encontrar imagens que traduzam as palavras do roqueiro: como representar o tédio e ódio que ele tinha com o mundo? E o sentimento do tocar para se divertir?

    O filme sonega ao espectador a imagem de Cobain, mas nos entrega seus atribulados pensamentos com sinceridade. E ainda nos saboreia com canções e artistas que influenciaram o músico, seja com famosos como Bowie (The Man Who Sold The World) e Queen (It’s Late) com menos populares, como The Vaselines (Son of a Gun). Sem contar a eterna fissura no R.E.M.

    Kurt Cobain – Retrato de Uma Ausência, que chega aos cinemas brasileiros três anos após ser finalizado e 15 anos após a morte da estrela do Nirvana, pode ser a última reflexão sobre porque ele e sua obra foram daquela maneira: contraditória.