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    Longa Sci-Fi A Vastidão da Noite surpreende com roteiro bem construído

    O longa conecta os anos 50 ao presente com perfeição e entrega uma das melhores pérolas escondidas no catálogo da Amazon Prime
    Por Maria José Barros
    14/01/2021 - Atualizado há cerca de 2 meses

    Qual o apelo que um filme estética e tematicamente cravado no Oeste americano dos anos 1950 pode ter em 2021? Essa é uma questão que salta para o colo do espectador logo no começo do filme A Vastidão da Noite (2020), do estreante em longas Andrew Patterson. Mas sua conexão com o presente, tanto em sua história quanto na forma em que é contado, ironicamente garante bons momentos de entretenimento.    

    Essa pequena pièce de résistance de baixo orçamento, do ainda em fase de amadurecimento Amazon Studios, teve pouca ou nenhuma divulgação. Depois do hit The Boys (2019) e de algumas outras excelentes produções premiadas, como por exemplo Maravilhosa Sra. Maisel (2017), a Amazon Prime insiste em esconder suas pérolas, uma lástima sem precedentes.

    Escrita por James Montague e Craig W. Sanger, a trama se passa em uma minúscula cidade no lendário Estado do Novo México nos anos 1950. No dia de uma importante partida de basquete no ginásio da escola que movimenta boa parte dos moradores, o radialista Everett se prepara para a cobertura do jogo quando ele e sua amiga Fay, que opera a central telefônica da cidade, percebem que algo no mínimo estranho está acontecendo. A possibilidade de alienígenas estarem sendo vistos por alguns moradores leva a dupla de adolescentes a uma busca investigativa com contornos fascinantes.  

    As referências aos famosos programas de televisão da época sobre o inexplicável surgem logo no início, quando a televisão apresenta um episódio de The Twilight Zone (1959 - 1964) com o nome do filme, em uma espécie de “meta-homenagem”. O background de sci-fi horror é conduzido de forma segura pela direção de Patterson, que se permite maneirismos sofisticados como um belíssimo plano-sequência logo nos primeiros minutos de filme.  

    Mas para além de The Twilight Zone, a maior referência do filme são os diversos podcasts que têm feito tanto barulho na última década, especificamente os de terror e ficção científica. Um exemplo é o podcast Homecoming (2016), da Gimlet Media, criado por Eli Horowitz e Micah Bloomberg, que atingiu ares de cult antes de se transformar em uma série homônima da Amazon Prime. Como a história é passada sem nenhuma imagem, o podcast de ficção, seja ele terror, sci-fi ou thriller, deve desenhar suas cenas da forma a prender seus ouvintes, dar textura com sons expositivos, trilha sonora emotiva e atuações robustas.  

    E é basicamente essa a atmosfera que Patterson traz para o filme. A agilidade pela qual os personagens se movimentam e seus diálogos pragmáticos criam uma fusão tão fluida que parece que eles estão em um não-lugar, ou sentados em um estúdio diante de seus microfones. Everett e Fay andam por toda a cidade mas não há uma sensação de deslocamento geográfico. Seu registro é feito por meio de telefonemas à central ou entrevistas com pessoas que “viram coisas estranhas no céu”. A presteza da edição de Junius Tully e a leveza da cinematografia de M. I. Littin-Menz dão uma sensação de urgência deliciosa, capaz de manter a atenção constante do público.  

    O roteiro talvez seja o maior trunfo do filme. Há ecos de A Conversação (1974) de Francis Ford Coppola, porque naquela cidadezinha em plena década de 1950 um gravador de segunda linha tinha em si uma magia quase ancestral. A pulsão de busca investigativa pela escuta, antiga ou nova, o relato oral per se, perpetra de vez sua conexão com o podcast atual: afinal de contas, a oralidade só muda de formato ao longo dos tempos. Montague e Sanger captam bem essa aura convidativa criando diálogos e monólogos compreensíveis de olhos fechados. Em suas banalidades Fay e Everett são taxativos. Em suas descobertas, surpreendentes.

    Talvez pelo gênero e referências específicas, a obra reverbere mais em seu nicho. Lamentável, por se tratar de um filme não hermético com capacidade de conquistar um público maior. É possível que a entrada na corrida pelo Oscar possa dar ao longa uma visibilidade merecida.          

    Por todos esses motivos listados, considerados os erros (entre eles uma certa morosidade em se chegar à problemática do filme) A Vastidão da Noite se permite ir além de uma homenagem explícita à televisão dos anos 1950 ao se apoderar com propriedade de um formato tão caro atualmente, mostrando o quanto histórias são contadas e recontadas com o mesmo fervor ao longo dos tempos.