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    LULA, O FILHO DO BRASIL

    Comete o mesmo erro de outras cinematografias: prender-se demais a fatos.<br />
    Por Heitor Augusto
    30/12/2009

    Para ser justo consigo, Lula, O Filho do Brasil deveria ser rebatizado de Dona Lindu, Uma Mãe do Brasil, tamanha a importância da mãe de Lula no filme. Interpretada por Gloria Pires, a personagem é uma das poucas coisas realmente interessantes na cinebiografia do presidente.

    Sendo de esquerda, direita, flamenguista ou são-paulino, é inegável que a trajetória de Luiz Inácio da Silva é repleta de elementos emotivos que naturalmente constituem matéria para um baita épico melodramático. Pobreza extrema, pai violento, mãe guerreira, migração para o Sudeste, profissão interrompida, líder popular etc.

    Mas Lula, O Filho do Brasil é vítima de seu próprio esforço. Busca contar um largo período na vida de seu principal personagem (nascimento à líder do ABC). Para tal, fica preso a um roteiro dependente da estrutura de episódios da trajetória de Lula: o pai violento, o primeiro emprego, o diploma de torneiro mecânico, o primeiro desentendimento com o diretor do sindicato, o dia em que pediu a mão da namorada em casamento...enfim, uma sucessão de acontecimentos-chave.

    Parece que Lula acordou na segunda-feira e, pumba, casou-se. Na terça, a mulher morreu na mesa de parto. Na quarta, conheceu Dona Marisa. Na quinta, foi aclamado pelos trabalhadores. Na sexta, sua mãe morreu. Dá a impressão de que todos os dias em sua vida foram marcantes. Apenas lá perto do final do filme, quando mostra os primeiros passos no sindicalismo até sua extrema popularidade entre os trabalhadores, ele se torna um personagem, de fato.

    Aí sim Fabio Barreto parece ter compreendido qual era a alma de seu personagem. De resto, torna-se um filme episódico, vício das cinebiografias que tentam abarcar um período longo. Diretores e roteiristas têm ficado preso aos fatos que não podem faltar, em detrimento a virar uma personagem do avesso e extrair sua essência.

    Em Lula, O Filho do Brasil temos apenas amostras da alma de seu personagem. Cenas como a que ele suja propositalmente o macacão de graxa para ser taxado de trabalhador é uma linda metáfora. Mas, em compensação, a direção de Barreto também é responsável por construir imagens patéticas, como o momento em que o pai alcoólatra esbraveja ao ver a família partir.

    No meio de tudo isso, existe Dona Lindu, a única personagem grande que sentimos o coração bater forte. Parte disso se deve à interpretação de Gloria Pires que, apesar do sotaque nordestino mequetrefe, usa rugas, movimento dos olhos, sorrisos e posição corporal parar dar expressão emocional a sua personagem.

    Assim como Rui Ricardo Dias, o Lula em fase adulta, que encarna de corpo e alma o líder dos piquetes. Outra boa surpresa de atuação é o garoto Guilherme Tortolio, o Lula adolescente.

    Enfim, a direção de atores é o principal sopro de vida em um filme preso em demasia aos fatos imprescindíveis, fazendo que com que seja próximo demais de um guia do tipo “Dez Coisas que Você Ainda não Sabe Sobre Lula”. Dá vontade de imaginar como seria Lula, O Filho do Brasil se Fabio Barreto tivesse relaxado um pouco mais e flutuado com seu personagem, em vez de ser tão duro e preso a episódios.