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    M-8: Quando a Morte Socorre a Vida reforça que corpos negros irão ocupar cada vez mais os lugares que lhes são de direito.

    Filme é estrelado por Juan Paiva e dirigido por Jeferson De
    Por Thamires Viana
    25/02/2021 - Atualizado há 4 meses

    Em M-8 - Quando A Morte Socorre A Vida, filme que estreou nos cinemas brasileiros e agora integra o catálogo da Netflix, a inquietude está presente nos detalhes, mas também de uma forma escancarada propositalmente. Em um país onde mais da metade da população é negra, o filme dirigido por Jeferson De e estrelado por Juan Paiva vem como uma grande chacoalhada para a realidade de um sistema racista e desigual.

    Na história, Mauricio (Juan Paiva), jovem pobre, negro e cotista, ingressa em seu primeiro dia de aula em uma renomada faculdade de medicina do Rio de Janeiro. Ele está ali por um motivo: sonha em ser médico, já que cresceu vendo Cida (Mariana Nunes), sua mãe que é auxiliar de enfermagem, batalhando diariamente na profissão. Mas logo em sua primeira aula ele se depara com um fato: os corpos estudados na sala de anatomia são em maioria de jovens negros e ele decide encontrar mais respostas sobre M-8 (Raphael Logam), cadáver que servirá de estudo na aula.

    Nas cenas que circulam pelos corredores da UFRJ, festas na Zona Sul e ruas estreitas da periferia do Rio, a direção de Jeferson De ganha contrastes que expõem de forma muito didática a realidade do negro no Brasil, algo que faz brilhantemente. São nos detalhes e nos diálogos mais ásperos que a trama de M-8 retrata a brutalidade de uma sociedade excludente e amarga.

    Como citado acima, a forma didática trazida em M-8 - Quando A Morte Socorre A Vida é de longe um dos maiores acertos de sua narrativa. No país em que as autoridades ainda desconversam sobre a existência do racismo, o longa faz questão de expor o óbvio para, de fato, mostrar que o preconceito está presente 24 horas por dia e sete dias por semana na vida da população negra. Em uma das cenas mais marcantes, Maurício é agredido em uma abordagem policial truculenta por estar "em bairro de playboy, tarde da noite", como diz um dos policiais. A disparidade de tratamento com o jovem negro e os colegas brancos, moradores do bairro, é um dos muitos exemplos claros que o filme traz da forma mais realista possível.

    Baseado no livro homônimo de Salomão Polak, o roteiro escrito por Jeferson em parceira com Felipe Sholl e colaboração de Carolina Castro se mostra muito consciente do que pretende mostrar nas telas, mesclando assuntos como meritocracia, relacionamentos inter-raciais, desaparecimentos e cotas enquanto ainda circula pela espiritualidade e ancestralidade do povo preto, sempre com muita sensibilidade nesse resgate poderoso às religiões de matrizes africanas.

    As atuações de M-8 - Quando A Morte Socorre A Vida vêm seguras e muito bem alinhadas com o tema. Na pele de M-8, Raphael Logam não articula sequer uma palavra, mas expressa em olhares todo o trabalho de expressão corporal feito para o filme e evidencia a importância de sua aparição para a trama.

    Já Juan se entrega ao personagem de uma forma autêntica e convincente. Como um jovem ator negro protagonizando uma história com tanta potência e carga emocional envolvida, ele, que é morador do Vidigal, desenvolve Maurício de dentro para fora, trazendo de sua vivência na periferia carioca a essência para seu protagonista. O ator ainda insere no estudante a maturidade de um garoto que se vê em meio a um conflito social e que se sente na missão de resolver, enquanto seus conflitos pessoais se unem à fragilidade de um menino com medos e inseguranças. Nessa busca por respostas do personagem, Juan também trabalha em Maurício, brilhantemente, esse lado da espiritualidade e da coragem para enfrentar o sistema.

    Mariana Nunes, atriz sempre muito centrada e potente em seus papéis, leva para Cida a força da mulher batalhadora que não tem tempo para amolecer diante à vida que leva. Ela brilha em cena e, assim como Juan, exerce uma das atuações mais emocionantes de sua carreira.

    M-8 - Quando A Morte Socorre A Vida é um filme brutal, cheio de simbolismos e referências que chega para reforçar o diálogo de que corpos negros irão ocupar cada vez mais os lugares que lhes são de direito.