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    MADAME SATÃ

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Forte, pesado e com interpretações vigorosas: Madame Satã esbarra numa inquietante dúvida: por que transformar em filme a vida de um criminoso de poucos escrúpulos? A julgar pelo roteiro, o travesti João Francisco dos Santos, figura da boemia carioca dos anos 30 e 40, nada mais era que um sujeito violento, encrenqueiro, que assassinou covardemente um bêbado pelas costas e mais tarde (isso o filme não mostra, apenas escreve) se transformou em figura lendária dos carnavais do Rio de Janeiro. Este personagem vale uma cinebiografia?

    Tecnicamente falando, Madame Satã é um primor. A fotografia de Walter Carvalho (o mesmo de Central do Brasil) confere um tom escuro e lúgubre à narrativa, de maneira bastante coerente com a decadência do bairro da Lapa daquele período. O elenco beira à perfeição, desde Lázaro Ramos, que encarna o personagem título, até a esquecida Marcélia Cartaxo (premiadíssima em A Hora da Estrela), passando por um Emiliano Queiroz soberbo. A direção de Aïnouz é segura, de poucas concessões. Sua câmera praticamente invade o íntimo dos controvertidos personagens, expondo toda a marginalidade da ambientação. Mas e o conteúdo? Por que endeusar um protagonista sem caráter? Complexo brasileiro de inferioridade? Síndrome de pequenez terceiromundista?

    Se Madame Satã - a pessoa, não o filme - conseguiu dar a chamada volta por cima, saindo da cadeia e ganhando os carnavais cariocas, isso o filme de Aïnouz não mostra. Resta apenas o sabor amargo de um País que dá espaço na TV e capas de revistas não aos seus heróis, mas aos seus vilões. Um triste sabor ressaltado por Madame Satã. O filme, não a pessoa.

    7 de novembro de 2002
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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br