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    MÃE E FILHA

    De bela plástica, filme exagera nos simbolismos vagos e tediosos e torna-se pretensioso demais
    Por Roberto Guerra
    01/03/2012

    Vencedor de cinco prêmios no Cine Ceará de 2011, onde teve sua primeira exibição, o longa Mãe e Filha, do cearense Petrus Cariry (O Grão), sagrou-se grande vencedor do festival e, de quebra, ainda faturou o prêmio da crítica.

    Não compartilho do entusiasmo que o filme provocou em alguns colegas. De fato Mãe e Filha é um trabalho recheado de belíssimas imagens muito bem enquadradas e fotografadas, mas esse esmero com a plástica não se estendeu à força de sua trama, que exagera nos simbolismos vagos e tediosos e faz da obra de Cariry um filme pretensioso demais.

    Autoral até a medula - Petrus escreveu, dirigiu, produziu e fez câmera – Mãe e Filha é contemplativo e parcimonioso em sua narrativa, que conta a história de uma mulher que saiu do interior para a capital Fortaleza e não deu notícias por 20 anos. Ela volta à cidadezinha do sertão onde nasceu, um lugarejo fantasma, repleto de ruínas e lembranças, onde pretende que a mãe batize e enterre o filho natimorto.

    São muito poucos os diálogos no filme, a maioria das falas são monólogos da avó que reflete sobre o significado da dupla maternidade e resiste a aceitar a vida que se encerrou, antes mesmo de começar, do neto. Mesmo assim um duelo sensorial carregado de muita tensão se estabelece entre elas. Para haver vida, afinal, é preciso a morte, o ciclo precisa ser completado.

    Não há no longa a intenção de brindar o espectador com respostas ligeiras. A câmera contempla os cenários e os personagens e cabe ao espectador - hoje mal habituado a receber tudo mastigado – o exercício da análise e da reflexão. Metafórico e carregado de um teor místico e religioso, o filme transita entre realidade e fantasia num espetáculo de morbidez por vezes exagerado. As resignações, a estranheza entre mãe e filha, o neto morto e os vaqueiros do apocalipse, tudo é mostrado como peças de um jogo de abstração que termina por cansar o espectador a certa altura.

    A compensação está no fascínio e beleza das imagens captadas pelo diretor. Não se pode negar que Cariry é rigoroso na técnica, que presenteia o espectador com belos planos, muito bem cuidados tanto no enquadramento quanto na luz. O jovem diretor apostou em se afastar de um cinema narrativo ligado ao grande público e, ao mesmo tempo, não quis embarcar em modismos estilísticos do cinema independente contemporâneo. Impôs sua identidade à linguagem cinematográfica e fez de seu filme um experimento particular. Se não fosse pelo lodaçal de simbolismos em que se transforma ao longo tempo, Mãe e Filha seria um bom filme. Ainda assim, nada mais que isso.