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    MÃE SÓ HÁ UMA

    Identidade e preconceito são temas desse relevante filme
    Por Daniel Reininger
    18/07/2016

    Não é à toa que Anna Muylaert é uma das principais cineastas brasileiras da atualidade. Que Horas Ela Volta? é um filme poderoso e com importantes mensagens sociais, enquanto destrincha uma bizarra realidade brasileira. Agora com Mãe Só Há Uma, ela faz o mesmo ao tratar de identidade, preconceito e tolerância em um filme relevante e energético, no qual faz um verdadeiro estudo psicológico desses temas.

    A trama acompanha o adolescente Pierre, garoto de 17 anos mais preocupado em explorar sua identidade sexual, em busca de conhecer a si mesmo, e tocar em uma banda de rock do que com qualquer outra coisa. Até que uma bomba explode em sua vida: Descobre que foi roubado na maternidade por sua mãe, Aracy, que é presa quase imediatamente.

    Sozinho com sua irmã Jaqueline e amparado por assistentes sociais, precisa enfrentar uma nova realidade, especialmente quando conhece seus pais verdadeiros.

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    Forçado a morar com a nova família, as coisas longo desandam, afinal, o rapaz está acostumado a se vestir e agir como bem entende e passa a enfrentar as restrições de uma família rica tradicional, com uma ideia completamente deturpada de como seu filho perdido deveria ser. A cena em que Pierre conhece a nova casa pela primeira vez e ninguém consegue chamá-lo por seu nome, insistindo em chamá-lo de Felipe, nome que teria recebido de sua família original, mostra de forma leve e quase casual o abismo que separa essas pessoas.

    Muylaert constrói o núcleo dramático do filme em uma série de cenas eficientes, capaz de apresentar todas as traumáticas reviravoltas de forma natural. Mas são as atuações que fazem dessa obra algo realmente inesquecível. Naomi Nero está ótimo no papel de Pierre e consegue transmitir toda a angústia do garoto com olhares e diálogos realistas. Dani Nefussi está muito bem no papel das duas mães. A escolha de colocar a mesma atriz nos dois papeis foi uma boa sacada da diretora.

    Entretanto, o longa peca por abandonar importantes personagens pelo caminho. Aracy, mãe de Pierre, some assim que é presa e não sabemos mais dela até o final do filme. O reencontro entre os dois poderia ser uma das melhores cenas da produção, mas esse momento fica de lado. O mesmo acontece com Jaqueline, irmã do rapaz, também roubada, que some quando é levada por seus pais biológicos.

    Embora faça sentido para a trama contada do ponto de vista de Pierre remover personagens que ele não reencontra durante o período de tempo em que o filme se passa, para o espectador o sumiço dessas importantes pessoas é um problema considerável. As duas são citadas pelo protagonista em cenas posteriores que mostram as dificuldades enfrentadas por ele para revê-las, porém, o reencontro com ao menos uma das duas seria importante para a narrativa.

    Dito isso, o filme faz um belo trabalho ao explorar as angústias e experiências de Pierre em apenas 80 minutos. A fotografia ajuda a compor o lado dramático, principalmente quando toma a perspectiva do adolescente. Na verdade, todo o lado técnico é muito bem executado. Não há dúvidas de que Mãe Só há Uma é uma obra poderosa e interessante, capaz de mexer com o espectador enquanto conta uma história realista e explora o verdadeiro sentido da palavra família.