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    MALDITO CORAÇÃO

    Por Angélica Bito
    22/05/2009

    Maldito Coração é um filme cool. Dirigido e protagonizado pela atriz Asia Argento (Terra dos Mortos) - que, por sinal, é filha do mestre do terror italiano Dario Argento -, é uma adaptação da coleção de contos The Heart is Deceitful Above All Things - inédito no Brasil -, de um dos escritores mais festejados dos últimos anos, J.T. Leroy. O escritor esteve no Brasil ano passado. Quem o viu sabe que se trata de uma figura andrógena, provavelmente reflexo do que diz ter passado em seus livros, de inspiração autobiográfica. Onde termina a realidade e começa a ficção ninguém sabe. O fato é que, de acordo com uma reportagem publicada recentemente no jornal norte-americano The New York Times, J.T. Leroy é uma farsa. A pessoa que se apresenta como o escritor é uma modelo. Os verdadeiros escritores de seus livros seriam uma dupla de jornalistas americanos. A possível farsa somente serve para aumentar ainda mais a aura em torno de Leroy, que tem diversos amigos no showbusiness. Maldito Coração é um reflexo disso: mais do que a adaptação de seus contos, o filme também é uma celebração de seu hype, vide as participações de luxo ao longo da película.

    Por isso, Maldito Coração é um filme cool. O tema, no entanto, não é nada descolado. O filme narra o drama de Jeremiah (Jimmy Bennett, Dylan Sprouse e Cole Sprouse, em idades diferentes), cujo crescimento sempre foi atrapalhado, digamos, pela presença de sua mãe totalmente desequilibrada. Sarah (Asia Argento) teve seu primeiro e único filho na adolescência. Filha de pais extremamente religiosos (Peter Fonda e Ornella Muti), Sarah cresceu sendo reprimida violentamente. Passou por clínicas psiquiátricas até que fugiu de casa, após dar o primeiro filho à adoção. Quando Jeremiah completa sete anos, ela resolve tirar sua guarda dos pais adotivos por puro capricho. Assim começa a decadência de nosso pequeno protagonista.

    Numa trama que envolve pedofilia, drogas, uma mãe completamente desequilibrada e fanatismo religioso, Maldito Coração é um filme, basicamente, sobre a criação de mentes desequilibradas durante a infância. Enquanto Sarah é fruto de uma criação extremamente calcada na religiosidade violentíssima - seus pais são parecidos com a mãe da protagonista de Carrie, A Estranha, para se ter uma idéia -, ela mesma tenta criar seu filho de uma forma completamente diferente. No entanto, acaba inserindo-o em um ambiente repleto de drogas, prostituição e sexualidade extrema.

    Entre situações bizarras e chocantes, acontece um verdadeiro desfile de participações especiais luxuosas. O que acaba desviando o olhar do espectador. Além dos já citados Peter Fonda e Ornela Muti, também estão no elenco John Robinson (Elefante), Ben Foster (do seriado A Sete Palmos), o roqueiro Marilyn Manson (irreconhecível sem a maquiagem), Kip Pardue (Heróis Imaginários), Michael Pitt (Os Sonhadores), Winona Ryder e Jeremy Sisto (também do seriado A Sete Palmos).

    Maldito Coração é um drama assustador ao tratar esses temas de forma tão explícita. Não há, aqui, a sutileza da abordagem de O Lenhador em relação à pedofilia, por exemplo. A trilha sonora é dos nova-iorquinos do Sonic Youth, banda celebrada no cenário independente. Seu som, totalmente experimental, muitas vezes perturbador graças às guitarras distorcidas, casa muito bem com a produção. Nada mais perfeito. Afinal, Maldito Coração é um filme totalmente cru, incômodo, conseguindo chocar o espectador da mesma forma que a literatura de J.T. Leroy conseguiu. Mas, assim como os livros dessa possível fraude, não é uma produção indispensável. Mas, no mínimo, interessante.