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    MAR ADENTRO

    Por Angélica Bito
    22/05/2009

    Não acredito que filmes devam ter uma espécie de "moral da história". Muito fácil produzir um longa que tente passar uma lição para o espectador; difícil é fazer com que ele realmente sinta algo depois da projeção, seja sentimentos "fofinhos" ou mesmo daqueles capazes de induzir idéias suicidas, ou te deixem pensando sobre sua própria existência durante dias. Mar Adentro é desses: em vez de passar alguma lição de vida, prefere deixar ao espectador a chance de concluir em relação às situações dramáticas que seu diretor nos apresenta.

    Mar Adentro, dirigido por Alejandro Amenábar (Os Outros), mostra a história real do espanhol Ramón Sampedro, vivido pelo sensacional Javier Bardem. Preso a uma cama há 26 anos depois de quebrar o pescoço ao mergulhar em uma parte rasa do mar, acidente que o deixou tetraplégico, ele resolve entrar em uma luta judicial para cometer suicídio com a ajuda dos seus amigos, já que, graças a suas condições, não conseguiria fazer isso sozinho - por isso a inserção dos tribunais na empreitada, já que Ramón não pretende que alguém seja condenado pelo "crime".

    A grande questão de Mar Aberto - mais do que a legitimação do suicídio ou as condições de vida de um tetraplégico - é o direito sobre a vida. Depois de quase três décadas nessa situação, Ramón não quer mais viver. Para ele, depender de outras pessoas é indigno. O direito de ir e vir já não lhe pertence mais, agora ele luta pelo de não continuar mais vivendo.

    Você pode concordar com sua decisão, ou não. O filme não entra nesse mérito da questão nem mesmo pretende levantar bandeiras sobre as condições de vida de um tetraplégico. Na verdade, Mar Adentro nos apresenta a figura carismática e extremamente lúcida que foi Ramón Sampedro. Nesse sentido, o sucesso do filme se deve à performance arrebatadora de Javier Bardem. Evidente que o trabalho de maquiagem feito no ator realmente chama a atenção - o galã espanhol de 36 anos foi envelhecido a ponto de parecer ter 52, idade do personagem -, mas todo o trabalho corporal se destaca na película. Apesar de desejar a morte mais do que qualquer outra coisa, Ramón tem um olhar doce e aprendeu a sorrir quando sente vontade de chorar. Seu carisma exerce magnetismo impressionante sobre as pessoas - especialmente nas mulheres. Seu relacionamento com os que os cercam é de tamanha leveza que se torna difícil acreditar que aquele homem que está preso à cama quer realmente morrer. A não ser quando ele discorre sobre seus motivos: o desejo é compreensivo, talvez até incontestável para os que costumam respeitar opiniões alheias.

    Por conta, a sutileza da interpretação de Bardem e o carisma do personagem principal, Mar Adentro acaba se tornando uma ode à vida. Apesar do protagonista lutar pelo direito de morrer, no espectador é despertada a vontade de viver ao máximo.