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    MILK - A VOZ DA IGUALDADE

    Por Heitor Augusto
    20/02/2009

    Quando dirigiu Últimos Dias, Gus Van Sant propôs uma viagem bem alucinada no universo do roqueiro Kurt Cobain, então líder do Nirvana, morto em 1994. Van Sant mergulhou em parte do universo confuso do músico, marcado por devaneios, frases desconexas e uma constante alienação do mundo. Na nova cinebiografia que dirige, Milk - A Voz da Igualdade, o diretor faz um movimento completamente diferente, se distanciando de seu personagem retratado para construir uma trajetória e um filme sóbrio. Um pouco diferente do que conhecemos por "um filme de Gus Van Sant".

    Uma hipótese para essa abordagem é o sentimento de responsabilidade do diretor. Assumidamente gay, Van Sant sabe o peso da figura de Harvey Milk na cultura americana. O ativista, até o início da década de 70, era apenas Harvey Bernard Milk, funcionário de uma companhia de investimentos de Nova York. Ao se mudar para o Distrito de Castro, em São Francisco, tomou contato com a contracultura, deixou o cabelo crescer e assumiu a homossexualidade. Foi o primeiro gay a ser eleito supervisor do Condado de São Francisco. Sua trajetória foi interrompida ao ser assassinado por Dan White, um adversário político, em 1978.

    Van Sant dá um ar de sobriedade ao filme, o que não significa ficar em cima do muro ao realizar seu retrato. Felizmente, não se rende ao paternalismo e não pinta um Milk com ares exageradamente heróicos ou um homem de personalidade irretocável. O diretor aposta em investigar a interferência social na personalidade do ativista, determinante para sua posição em São Francisco.

    Porém, sem ser paternalista, Van Sant não deixa de lembrar que, se os EUA - especialmente São Francisco - atingiram um respeitável status de liberdade sexual, foi pela atuação constante de pessoas como Harvey. Deixando bem claro que a vida de seu personagem não foi um conto de fadas, inicia o filme com imagens de homossexuais sendo presos pela polícia por freqüentarem bares de paquera.

    A primeira parte de Milk - A Voz da Igualdade apresenta o personagem desde os tempos de Nova York e como sua atuação em São Francisco começou "apenas" pelo direito de beijar ou sair com quem quisesse, sem ter de esconder ou pedir desculpas. Na segunda parte, Milk já percebeu que, se quiser mudar algo, precisa agir coletivamente.

    Este é um dos pontos nos quais o retrato tem a marca da concepção de Van Sant. O diretor reitera, sempre que pode, que a articulação leva à mudança política e, por consequência, proporciona os direitos individuais. Seja por pessoas ou situações incorporadas ao roteiro, Milk - A Voz da Igualdade não deixa de lembrar aos mais jovens que a relativa liberdade desfrutada hoje tem alguns porquês.

    Van Sant tem dois grandes parceiros na construção desse retrato: Sean Penn e James Franco. Penn, absurdamente descolado e cool, já começou com um ponto positivo por ter semelhança física com Harvey Milk. Soube entender os exageros, as qualidades e as imperfeições de seu personagem. Não seria injusto dizer que a maior carga de emoção do filme deve-se mais a ele do que à direção. Também merece ser citada a simpatia na tela de Franco como Scott Smith, o namorado de Harvey.

    Por se tratar de um filme de Gus Van Sant, sempre há brechas para invenções, mesmo que discretas e mínimas. A imensa habilidade em trabalhar a poesia do Super-8 está em Milk - A Voz da Igualdade com a turva mistura entre imagens de arquivo com trechos filmados.

    Mas Van Sant se faz discreto, crente de que a força de seu personagem e a interpretação de Sean Penn são suficientes e até maiores do que ele mesmo. Talvez sim, talvez não. Para um cineasta que reinventou o tempo de narração com Elefante, que reinventou o retrato em Últimos Dias e reinventou o olhar sobre a juventude em Paranoid Park, é possível que o resultado fosse mais apaixonante se ele tivesse sido mais atrevido e fiel a inventividade de sua cinematografia. Algo mais próximo de Mala Noche e mais distante de Gênio Indomável.