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    MINHA QUERIDA DAMA

    Drama aproxima personagens atormentados pelo passado
    Por Edu Fernandes
    17/06/2015

    Pelo elenco e a relação entre os personagens, pode se dizer que Minha Querida Dama é um filme sobre reencontro. O protagonista é um homem decadente (Kevin Kline), que vai a Paris cuidar de pendências de herança. Na Cidade Luz, se apaixona por outra alma atormentada (Kristin Scott Thomas, de Antes do Inverno). Os dois atores já formaram um par romântico anteriormente em Tempo De Recomeçar (2001) e a química está lá.

    Divorciado e desempregado, Mathias larga o pouco que tem nos Estados Unidos para tentar recomeçar a vida na França. Ele recebeu de herança do pai um grande apartamento e tem o plano de vender o imóvel e dar uma nova guinada. O problema é que o local é habitado por Mathilde (Maggie Smith, de O Quarteto), uma idosa que fez um contrato com o finado que impede o herdeiro de ter controle sobre o apartamento até ela morrer.

    Mathilde tem duas fontes de tenda: algumas aulas de inglês que ministra para alunos particulares e uma taxa mensal que o pai de Mathias lhe paga, e que agora deve ser assumida pelo protagonista. A idosa tem uma personalidade ácida, o que concede um humor quase britânico a alguns diálogos. Mais adiante, ela funciona como mentora para Mathias,o que torna sua personagem algo entre os papeis que Maggie Smith desempenhou nas franquias O Exótico Hotel Marigold (2011-2015) e Harry Potter (2001-2011).

    Quem também mora no apartamento é Chloé, filha única de Mathilde. Ela é quase tão problemática quanto Mathias, e mantém um relacionamento com um homem casado. Maggie Smith e Kristin Scott Thomas já foram mãe e filha em De Bico Calado (2005) e mostram novamente bastante introsamento.

    Assim como a relação entre Mathias e Mathilde é transformada com o desenvolver do enredo, o mesmo acontece entre Mathias e Chloé. A disputa jurídica e rivalidade de temperamento do começo do filme aos poucos dá espaço para sentimentos românticos. A conexão se dá porque os dois carregam uma bagagem pesada de sofrimentos. O encontro entre eles se apresenta como uma chance tardia de redenção amorosa e é um dos elementos mais belos de Minha Querida Dama.

    Como aconteceu com Dúvida (2008), Minha Querida Dama é a adaptação cinematográfica de uma peça cujo dramaturgo assina o roteiro e a direção. No caso de Israel Horovitz, também é possível afirmar que o filme seja um triunfo, pois afasta a entonação teatral nas falas e consegue incorporar os cenários. Boa parte da ação se passa dentro do apartamento, mas não há a sensação de confinamento que acomete outras adaptações do tipo.

    Entretanto, o roteiro não é perfeito. Mais para o final, depois de algumas boas surpresas, são criadas armadilhas inescapáveis para a dramaturgia. A única solução possível é entregar um desfecho que parece saído de uma fraca telenovela, o que é um desperdício diante da qualidade de tudo o que foi criado nos dois primeiros terços do filme.