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    MISS JULIE

    Adaptação retrata realidade social na era aristocrática
    Por Iara Vasconcelos
    21/05/2015

    Quando August Strindberg escreveu uma de suas peça mais famosas, "Senhorita Julia", de 1888, ele queria retratar a forte hierarquia de classe e gênero presente na sociedade da época, na qual a relação entre criados, patrões, homens e mulheres não poderiam coexistir sem levar em consideração a disparidade de poder. Na adaptação de Liv Ullmann, a musa de Bergman, Jessica Chastain, e Colin Farrell conseguem intensificar a tensão desse contexto aristocrático com um confronto de atuações de alto nível.

    A trama de Miss Julie se passa em 1880, durante o solstício de verão – dia mais longo do ano – na rica propriedade de um barão irlandês. A data é marcada por festejos regados a bebida e dança. É também o dia no qual as fronteiras sociais são ultrapassadas e ricos e pobres, patrões e empregados, se misturam sem preconceitos. É nesse cenário que se inicia um perigoso jogo de sedução entre a filha do barão, Julie, e seu criado, John. Tudo é assistido passivamente pela cozinheira da casa e noiva de John, Kathryn.

    Ullmann consegue retratar bem o panorama em que os personagens se encontram. A relação entre um subordinado e seu "superior" era considerada um escândalo, ao mesmo tempo em que mulheres, principalmente as da alta sociedade, eram estritamente proibidas de se envolverem com homens que não fossem seus maridos. Na trágica história, a aproximação entre eles levará os dois lados à ruína.

    Apenas três atores permanecem em cena, Chastain, Farrell e a britânica Samantha Morton. A atmosfera teatral é muito evidente e há poucas cenas externas no filme. É assim que a cineasta consegue criar um clima claustrofóbico perfeito ao concentrar os acontecimentos na residência da família. É como se os personagens estivessem trancafiados dentro de suas próprias inquietações e fadados a se sufocarem nos próprios segredos.

    A parte mais enérgica do drama, cuja primeira parte é centrada em insinuações entre Julie e o funcionário de seu pai, ocorre com a descoberta do caso amoroso dos dois pela cozinheira Kathryn. Em meio ao caos, Chastain e Morton crescem na trama e entregam ao público uma atuação bastante sólida e competente. Infelizmente, a história parece enveredar por outros rumos, mas logo retorna ao drama fácil e assim permanece até sua conclusão. Naquele momento em que pensamos, e torcemos, que as duas mulheres terão um despertar revolucionário, somos confrontados com a realidade da época e seus fins sexistas.

    A narrativa de Miss Julie leva certo tempo para cativar o espectador. Alguns dos monólogos são longos e, aliados a falta de movimento, se tornam cansativos. Ullmann acerta em combinar o elenco renomado e popular com o texto tradicional do teatro - a trama é bastante fiel à obra original - mas peca ao transpor seus elementos às telonas. Diferente dos palcos, o público de cinema necessita de estímulos visuais diferenciados e a câmera estática e pouca variedade de cenários pouco contribuiram para o resultado final.