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    MOONRISE KINGDOM

    Pode parecer uma esquisitice, mas seu diretor consegue, como poucos, dar unidade e dimensão à sua proposta insólita<br />
    Por Roberto Guerra
    08/10/2012

    Para admirar os filmes de Wes Anderson (de Os Excêntricos Tenenbaums e Três é Demais) é preciso certo desapego à realidade e capacidade de mergulhar sem hesitação em universos que transitam entre o crível e o totalmente surreal. Locais povoados de personagens nonsenses que, muitas vezes, beiram o ridículo, mas que criam identificação imediata com o público por exporem sem disfarces, e muitas vezes de maneira patética, aquilo que escondemos por trás das convenções sociais.

    Neste sentido, Moonrise Kingdom, e sua enternecedora e hilária história de dois adolescentes desajustados que tentam vivenciar um amor impossível, é um típico longa de Anderson. Um filme cativante, principalmente para o público que curte histórias e personagens incomuns. Sua raridade excêntrica, no entanto, é também universalmente atraente e capaz de dialogar mesmo com o público mais afeito a tramas naturalistas e convencionais.

    O divertido - e propositadamente pouco expressivo - casal de protagonistas é formado por Sam Shakusky (Jared Gilman) e Suzy Bishop (Kara Hayward). Eles têm entre 12 e 13 anos e, apesar de seus problemas de inserção social, são confiantes e decididos. Sam é órfão e membro de um grupo de escoteiros no qual tenta encontra o sentido de companheirismo de uma família, no que não tem muito êxito - seus amigos de grupo o ignoram. Suzy é a entediada irmã mais velha de uma família tradicional e, aparentemente, feliz. Ela, no entanto, é triste e prefere ver o mundo através de seus binóculos, uma metáfora da fuga, que a projeta para longe dos limites de sua casa, de onde quer partir depois de descobrir o livreto “Como Lidar com Uma Criança Perturbada”, que seus pais estão lendo. Suzy sabe, ou acredita saber, ser a motivação da leitura.

    Peixes fora d’ água em seus mundos, fogem juntos pelo atraente cartão-postal da ilha de Nova Inglaterra. Passam, então, a ser perseguidos pelos pais da menina (Bill Murray e Frances McDormand), a polícia (representada pelo capitão Sharp, vivido por Bruce Willis) e um grupo de escoteiros mirins para o qual seu hilário líder, Mestre Ward (Edward Norton), tem de avisar que se trata de uma “operação de resgate não-violenta”. Anderson e seu parceiro de roteiro, Roman Coppola, usam o grupo de escoteiros para fazer uma sátira sutil ao militarismo. O filme, por sinal, é pontuado de críticas perspicazes à sociedade moderna, mesmo sendo ambientado na década de 60. A pequena ilha retratada no filme funciona como um microcosmo do mundo, onde muitas de nossas incongruências se evidenciam de forma caricata.

    Durante um bom tempo a produção se detém no jovem casal em fuga e suas descobertas. Os dois atores, ambos estreantes, estão ótimos e têm sintonia cênica perfeita. Os diálogos, por sua vez, são um destaque à parte. Quando se beijam pela primeira vez, numa das muitas sequências impagáveis do filme, ambientada na praia, Sam vira a cabeça e cospe. Em seguida, impassível, garante a Suzy que é só porque tinha areia na boca. Nestes momentos Moonrise Kingdom esquece da sátira e é apenas uma bela evocação do amor jovem e pueril, uma representação da América inocente.

    O filme tem direção de arte distinta e bela, que nos faz mergulhar num tempo e espaço onde seus acontecimentos se tornam críveis a nossos olhos, mesmo com todos seus absurdos. É como se tivéssemos saltando da realidade para um conto de fadas. O lar de Suzy, retratado como uma gigante casa de bonecas, onde a câmera salta de um cômodo ao outro em visão frontal, é o indicador inicial de que estamos em outra dimensão, onde tudo é possível, onde o insensato torna-se aceitável.

    Moonrise Kingdom pode parecer uma esquisitice, e é. Mas também é fato que Wes Anderson consegue, como poucos, dar unidade e dimensão à sua proposta insólita. Sua estranheza em forma de filme, principalmente nos dias de hoje, soa menos exótica que muita tolices pretensamente realistas.