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    MOSCOU

    <p>Esta &eacute; a experi&ecirc;ncia mais radical da filmografia de Eduardo Coutinho</p>
    Por Heitor Augusto
    06/08/2009

    “Os ensaios do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, da peça Três Irmãs de Tchecov, sob a direção de Enrique Diaz. Os bastidores de um espetáculo que não chegará ao palco, numa experiência catalisada pelo e para o filme”. Esta é a sinopse oficial de Moscou, o novo documentário de Eduardo Coutinho.

    Há no trecho a supressão de uma palavra que traz a essência do que é o filme. E essa palavra é “processo”. Coutinho radicaliza o que havia indicado em Jogo de Cena e o que iniciara há 25 anos em Cabra Marcado Para Morrer. Com seu novo documentário, ele não apenas flerta com a ficção, mas nos apresenta um filme que prioriza o processo de criação e não o resultado.

    A opção pelo Grupo Galpão não é por acaso. Fundada em 1982 em Belo Horizonte por seis atores, a trupe tem um pé no teatro de rua, na improvisação e no circo, e o outro na pesquisa, discussão metalingüística teatral. O Galpão, responsáveis por montagens-símbolo como A Rua da Amargura e sua versão de Romeu e Julieta, tem como uma das principais características o acréscimo de qualquer experiência trivial nos trabalhos e montagens de peças. Digamos, uma antropofagia da simplicidade.

    Moscou é o encontro de um grupo que prioriza o processo dramartúrgico com um diretor de cinema que cada vez mais tem se interessado pelo método e pela experiência, não apenas pelo resultado. E isso já estava indicado em Jogo de Cena, no qual ele explicitou o quão turva é a separação entre interpretação e discurso verídico e, além, fez com que suas atrizes falassem ao espectador sobre como foi interpretar os personagens.

    O novo filme é um passo à frente. A câmera sai da posição de objeto de registro e se torna personagem. As atrizes não interpretam para ela, mas com ela e por ela a versão à mineira de Três Irmãs, escrita em 1901 pelo russo Anton Tchecov. Os atores interpretam por quase todos os 80 minutos de filme, seja nos intervalos, nos camarins, na hora do lanche ou quando falam de suas próprias experiências.

    Moscou é uma pindorama. Simultaneamente, documenta o processo de criação do Grupo Galpão e intervém no decurso dos ensaios. Coutinho radicaliza a intervenção em primeira pessoa que fizera em Cabra Marcado Para Morrer e mostra que não apenas seleciona o que sua câmera capta. Sem receios, parte para o ataque e assume a posição de interventor.

    Em suma, nos mostra que o método, a progressão e o movimento são mais importantes que o resultado final. Ou seja, o meio é mais interessante que o começo ou o fim.