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    NA TERRA DE AMOR E ÓDIO

    Estreia de Angelina Jolie na direção traz trama superficial que não abarca a realidade da Guerra da Bósnia
    Por Roberto Guerra
    05/12/2012

    A estreia de Angelina Jolie atrás da câmeras - tratando do sangrento conflito na Bósnia nos anos 90 - é um filme simplista, fruto de seu ativismo humanitário. Em cinema, no entanto, a realidade se impõe, principalmente quando a ideia é retratar um episódio real. Fazer filme em cima do noticiário da CNN é navegar sobre a superfície dos fatos, leviandade que permeia Na Terra de Amor e Ódio de ponta a ponta.

    O que temos neste longa é uma representação da guerra pelos olhos parciais do Jolie. Sensibilizada pelos inúmeros estupros ocorridos no conflito, a aspirante a cineasta transformou todos os soldados sérvios de seu longa em estupradores atávicos. Eles molestam as mulheres simplesmente porque são maus, porque violentar fêmeas faz parte da natureza deles. Não há individualidades, conflitos pessoais, remorso: todos são maus e ponto final. Visão pueril estabelecida já na primeira meia hora de filme.

    Em meio ao horror dessa guerra muito particular, a diretora resolve inserir um Romeu e uma Julieta. Ele é o policial sérvio Danijel (Goran Kostic) e ela a artista plástica mulçumana bósnia Ajla. Ambos flertavam pouco antes do conflito, que interrompe o romance incipiente. Reencontram-se quando Ajla é feita prisioneira com outras mulheres e levada para uma base militar sérvia para trabalhar como serviçal e escrava sexual. Quando a vê, Danijel, um oficial, a livra de ser seviciada por seus homens.

    Ele a protege como pode, mesmo estando em extremos opostos da equação étnica. É uma espécie de ser estranho dentro de seu meio. Único homem com resquícios de dignidade e humanidade a conviver com animais insanos, incluindo seu pai, general destemperado interpretado por Rade Serbedzija. O bom ator é completamente desperdiçado por seu personagem se parecer com o de uma ópera-bufa: sem profundidade e personalidade, raso como piscina de criança.

    O que segue adiante ajuda a enterrar de vez o filme. Enquanto Danijel e Ajla fazem amor ao longo de toda trama, ela se sente culpada por ter sorte melhor que as mulheres de seu povo e ele, por sua vez, vive conflito pessoal por estar se relacionado amorosamente com uma mulçumana. O pano de fundo desse romance é a guerra, que não é guerra. Porque em Na Terra de Amor e Ódio não houve confronto entre sérvios e bósnios, mas apenas aqueles massacrando estes. E, como era de se esperar de um filme maniqueísta e parcial, todos os bósnios são gente boa, camaradas, inocentes, humanitários e apenas vítimas.

    Angelina Jolie deu passo maior que a perna querendo fazer um filme sobre esse triste episódio recente de nossa história. Adotar crianças de países pobres e assistir à cobertura de guerra da CNN no conforto de uma mansão em Los Angeles não qualificam ninguém para tal. A despeito das boas intenções da atriz - que acredito serem verdadeiras - é melhor ela continuar a ser Embaixadora da Boa Vontade da ONU e deixar o cinema – ao menos a direção - para quem entende do riscado.