cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    NÃO, MINHA FILHA, VOCÊ NÃO IRÁ DANÇAR

    À francesa, Christophe Honoré volta suas lentes a uma família disfuncional<br />
    Por Celso Sabadin
    06/01/2010

    Já repararam? São vários os filmes franceses que mostram uma família disfuncional que resolve discutir suas relações de neuroses e culpas no aconchego de uma belíssima casa de campo, durante um feriado ou fim de semana. Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar é um deles. A ação não acontece exatamente num feriadão, mas a base é a mesma de muitos outros dramas familiares produzidos na França. É interessante pensar sobre qual seria o papel casa de campo no imaginário da cultura francesa, mas deixemos o assunto para sociólogos ou psicólogos, que conhecem melhor a questão.

    Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar começa mostrando a inquieta Lena (Chiara Mastroianni), esbaforida, junto de seus dois filhos, prestes a embarcar para a casa de seus pais, no interior. Pouco antes do trem partir, Augustine (a expressiva estreante Lou Pasquerault) chama a atenção da mãe para um pássaro quase morto que precisa de cuidados. Lena nega. Anton (Donatien Suner), o filho mais velho, insiste para que a ave seja socorrida e chantageia a mãe: “Em caso de guerra, você deixaria alguém morrer?”. Lena cede e coloca o pássaro ferido em sua bolsa... onde morrerá pouco depois. A cena não é gratuita. Logo no início do filme, o diretor e co-roteirista Christophe Honoré (o mesmo de Em Paris e Canções de Amor) sinaliza a ave como uma metáfora da própria incapacidade de Lena de tomar conta do que quer que seja. Emocionalmente instável, ela será o fio condutor deste drama com toques irônicos sobre uma família que fala muito e se comunica pouco.

    Já na bela casa de campo dos pais, Lena se encontrará com irmãos, cunhadas e sobrinhos que se encarregarão de tornar sua vida um inferno ainda mais insuportável. Porém, tudo pode piorar ainda mais com a chegada de Nigel (Jean-Marc Barr), o ex-marido que Lena abandonou com a mesma covardia de quem iria deixar um pássaro ferido abandonado numa estação de trem.

    Recheado pelo famoso e inesgotável mau humor francês, constante catalisador de diálogos do mais puro e venenoso sarcasmo, o filme não se prende a padrões de narrativas tradicionais, muito menos a fórmulas consagradas de roteiros convencionais. Honoré não hesita em, por exemplo, interromper a história para dar forma cinematográfica a um belíssimo conto narrado por Anton, sobre uma princesa que só se casará com um príncipe que a fizer dançar por 12 horas seguidas. Ou mesmo de permitir idas e vindas supostamente destrambelhadas de seus personagens. O que não chega a ser um problema. Afinal, se a narrativa por vezes parece perdida, vale lembrar que a personagem principal que a conduz também o é.

    Só não se deixe enganar: a participação do badalado Louis Garrel (Os Sonhadores, Amantes Constantes) é bem pequena, embora o trailer do filme tenha sido editado de modo que ele pareça um dos atores principais. Coisas do marketing.