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    NÃO PARE NA PISTA: A MELHOR HISTÓRIA DE PAULO COELHO

    Trama fragmentada deixa de fora a emoção
    Por Roberto Guerra
    12/08/2014

    Este é um filme muito bem produzido, de méritos, que renderia bem mais se não fosse tão fragmentado. Há excesso de idas e vindas no tempo e isso dificulta algo basilar numa história como essa: tocar o público. Assiste-se a tudo ciente da excelência técnica (boa fotografia, maquiagem, direção de arte, atuações), mas à distância, sem se envolver o necessário emocionalmente. A eliminação de um dos tempos do filme certamente evitaria a demasiada quebradura da narrativa e afastamento emocional.

    Não Pare na Pista mostra a vida de Paulo Coelho em três tempos. O ator Ravel Andrade estreia na telona interpretando o futuro compositor e escritor em sua conturbada adolescência. Júlio Andrade, seu irmão famoso, vive Coelho na fase adulta, época da famigerada parceria com Raul Seixas, e nos dias atuais, já estabelecido com um dos autores mais lidos do mundo. Para esta última, o ator teve de passar por quatro horas de maquiagem antes de rodar – trabalho elogiável feito pela mesma equipe de O Labirinto do Fauno.

    O incômodo está nas passagens atuais, nas quais nada de muito interessante ocorre. Um Paulo Coelho reflexivo volta à Espanha para reviver alguns momentos de sua travessia do Caminho de Santiago de Compostela, que deu origem ao livro Diário de Um Mago. Essas sequências meditativas, um tanto vazias, em que o personagem pouco fala, são ainda prejudicadas pelas camadas de silicone sobre o rosto de Júlio Andrade, que tem sua interpretação limitada pela maquiagem pesada.

    Perde-se muito tempo aqui, um tempo precioso dentro do limitado tempo de duas horas de duração do filme, e deixa-se de se concentrar em dois pontos fortes: as adversidades vividas pelo personagem na adolescência – o que ajuda a explicar suas decisões futuras - e seu relacionamento com Raul Seixas, alvo natural de grande interesse do público.

    É curioso notar que Não Pare na Pista busca, desde seus primeiros momentos, uma força dramática que acaba por nunca encontrar. O diretor Daniel Augusto, estreante em longas-metragens, faz todo um esforço para que cada cena tenha um acabamento visual impecável e potência cênica – e chega lá -, mas não consegue construir um arco dramático emocional, o que é bem diferente.

    Em dada cena, a melhor do filme, o ator Enrique Diaz, que interpreta o pai de Paulo Coelho, houve no rádio do carro a música Meu Amigo Pedro, de autoria de seu filho e que se refere criticamente a ele. Esta talvez seja a única sequência que consegue estabelecer um link convincente entre as situações mostradas anteriormente – de conflito entre pai e filho – e o presente do filme. Com uma interpretação contida, na medida, Diaz joga na tela toda uma reflexão de vida com o olhar.

    Paulo Coelho realmente tem uma história que merecia um filme. Mas realizadores brasileiros, boa parte deles, ainda têm problema em explorar a emoção. Temem parecer piegas e acabam por privar seus filmes da dose de sentimento necessária, quando necessária, como é o caso de Não Pare na Pista.

    Carolina Kotscho, que coescreveu o sucesso Dois Filhos de Francisco, é a responsável pelo roteiro. Uma Patrícia Andrade como parceira de texto e uma pegada Breno Silveira – sem medo de comover - na direção e Não Pare na Pista não teria ficado tão à distância, tão difícil de sentir, apesar do bom acabamento. E esmero técnico só não basta.