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    NARRADORES DE JAVÉ

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    O ano começa bem para o cinema brasileiro: logo no primeiro mês de 2004, o espectador já é brindado com uma das melhores produções nacionais dos últimos anos: Narradores de Javé, uma jóia rara de narrativa e criatividade. Sob a direção de Eliane Caffé (a mesma do difícil Kenoma), Narradores de Javé conta a história de um pequeno vilarejo no interiorzão do nosso nordeste que está ameaçado de ser inundado pela construção de uma usina hidrelétrica. Para que Javé não pereça sob as águas, só há uma solução: que a cidade prove para os "engenheiros" (como diz a população local) que lá existe algum tipo de patrimônio cultural a ser preservado. Mas qual o quê? O lugar é uma pindaíba só, com nada de importante para mostrar. Até que o astuto Zaqueu (Nélson Xavier, impecável) tem uma idéia: o maior patrimônio histórico do lugar são as histórias que o povo conta. Para espantar o fantasma do progresso bastaria, então, escrever os contos populares num livro e mostrar para as autoridades. O que parece ser solução se transforma num problema ainda maior: por ali, ninguém sabe escrever. Aliás, quase ninguém. O ex-funcionário do correio Antonio Biá (José Dumont, simplesmente perfeito) é conhecedor das letras e poderia fazer o serviço. Mas o problema - outro?! - é que a população de Javé o odeia, por causa de umas coisas que eu aqui não vou contar pra não tirar as surpresas do filme.

    É neste ritmo de sátira social, misturando um pouco de Dias Gomes com um tanto de Ariano Suassuna, que Narradores de Javé conquista as platéias com sua simplicidade e inteligência. O texto flui solto, gostoso, divertido. O elenco - misturando atores profissionais com gente do lugar - é de uma credibilidade espantosa e o humor corrosivo traça um contundente painel da alma brasileira, repleta de egoísmos e profunda adepta do "salve-se quem puder". Como uma espécie de "co-autor" da obra, o ator José Dumont foi um verdadeiro assistente de direção, improvisando com um timming perfeito e dirigindo os não atores mesmo enquanto a câmera rodava. Repare que as intervenções de seu personagem, chamando este ou aquele a falar, e este ou aquele a calar, na realidade ajudam a tocar o filme, a encontrar o ritmo certo, a colocar todos à vontade.

    Narradores de Javé é tão sertão, tão Brasil, tão pé no chão, tão terra seca, que fica até difícil imaginar que ele foi dirigido e co-roteirizado por uma paulistana criada no ABC. Mas foi. Eliane Caffé dedicou boa parte do seu tempo a colher histórias pelos interiores de Minas e da Bahia, ouvindo os nativos, acostumando seus ouvidos urbanos a um linguajar característico, misturando tudo, destilando em forma de cinema com resultados nunca menos que excelentes.

    Não por acaso, Narradores de Javé ganhou nove prêmios no Festival de Recife (incluindo Melhor Filme, Prêmio da Crítica e Melhor Direção), foi escolhido como o Melhor Filme tanto pelo júri oficial quanto pelo popular no Festival do Rio BR 2003 e ainda ganhou o Prêmio da Crítica no Festival de Fribourg, na Suíça. Não perca!