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    NEBRASKA

    Conto nostálgico tem fotografia e atuações inspiradas
    Por Daniel Reininger
    13/02/2014

    Nebraska é uma história melancólica sobre um passado esquecido e muitas vezes considerado irrelevante. O clima nostálgico é garantido pela ambientação, o centro-oeste rural norte-americano, ótima trilha de country clássico de Mark Orton, e elenco sem grandes astros, mas capaz de entregar atuações impactantes, como a de Bruce Dern.

    A fotografia em preto e branco pinta um retrato perfeito da vida simples do interior dos Estados Unidos. Nesse cenário, Woody Grant (Dern) acaba de ganhar um milhão de dólares. Para retirar o prêmio, precisa viajar até Lincoln, Nebraska. Sem carro, tenta ir a pé até lá saindo de Billings, Montana. O idoso anda poucos quilômetros antes de ser pego pela polícia e levado para casa por seu filho, David, interpretado de forma segura por Will Forte.

    + Woody Grant é a representação perfeita da figura do louco

    Embora sua mãe Kate (June Squibb) e o irmão Ross (Bob Odenkirk) acreditem que Woody precise ir para um asilo, afinal só ele não percebe que o prêmio é um golpe de uma agência publicitária, David opta por ajudar o pai. O que se segue é, como muitos dos filmes de Alexander Payne (Os Descendentes), um road movie com belas cenas e revelações lentas e profundas sobre os personagens.

    O roteiro de Bob Nelson arranca risos simplesmente por mostrar a realidade da vida familiar, sem forçar situações. Quando conhecemos os parentes distantes de Woody e David, eles estão assistindo televisão de forma desinteressada. Em seguida, começa uma incomoda sessão de perguntas, fofocas e histórias antigas. Os silêncios constrangedores revelam tanto sobre os personagens como as perguntas contundentes e refletem a realidade da maioria das pessoas que ficam anos sem se ver.

    Bruce Dern está perfeito no papel que anteriormente foi oferecido a Gene Hackman, mas que ganha força ao ser interpretado por alguém menos famoso. O visual desgrenhado e distante de Woody transmite de forma plena a decepção de alguém incapaz de viver de acordo com suas próprias expectativas. O ator não exagera na atuação e toda tristeza e indignação são mostradas de forma sutil, sempre flertando com a loucura, sem nunca ceder totalmente a ela.

    Payne é capaz de alternar o tom cômico e triste, sempre com cuidado para não cair no sentimentalismo barato. Eventualmente, David para na cidade natal de Woody, onde, aos poucos, descobre quem é realmente seu pai, ao ouvir histórias do passado. Ele entende melhor a situação do veterano, com quem se identifica mais do que esperava e surpreende-se ao perceber que ele não é apenas um alcoólatra senil.

    A fotografia impactante é crucial para contar a jornada de pai e filho. Closes reforçam as reações dos atores e são alternados com ângulos abertos para mostrar a imensidão do meio-oeste. Efeitos como transições, fusões e fades trazem de volta a nostalgia de técnicas clássicas do cinema - hoje em desuso - e, como linguagem, reforçam o discurso de passado perdido estabelecido pelo roteirista Bob Nelson.

    Payne realmente consegue criar uma grande obra com tons góticos e poéticos sobre os Estados Unidos pós-recessão. Não é somente pelo visual, trilha sonora e atuações que Nebraska precisa ser visto, mas também pela chance de rever uma forma cada vez mais rara de fazer filmes. Ao mesmo tempo, é a chance de assistir a um conto divertido sobre oportunidades fugazes da vida e desafios de conviver com pessoas que amamos.