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    NEM TRENS, NEM AVIÕES

    Por Da Redação
    22/05/2009

    Nos anos 70, o cineasta holandês Jos Stelling fez muito sucesso no circuito de artes e festivais com dois excelentes filmes: O Homem da Linha e O ilusionista. Eram trabalhos intimistas, criativos, inteligentes, praticamente mudos e muito vigorosos. Depois, Jos andou ausente dos nossos cinemas. Por isso, é muito bem-vinda a estréia no Brasil de Nem Trens, Nem Aviões, o mais recente trabalho do premiado diretor.

    A história começa com Gerard (Dirk Van Djck, ótimo), arrumando as malas e abandonando sua casa com um ar melancólico. Ao som de Bonnie Tyler cantando “It´s a heartache” (é uma dor no coração), rápidas tomadas externas enfocam pessoas e situações – teoricamente aleatórias – caminhando pelas ruas. Algumas brigam, outras se ajudam, outras ainda se estapeiam. Aos poucos, todas elas vão se encontrar num bar que fica em frente à estação de trem. Como Ettore Scola em O Jantar, Stelling também vai narrar todo o drama humano de seus personagens dentro de um único lugar, no período de um único dia.

    A princípio, tudo parece aborrecido e repetitivo dentro da rotina do bar. Até que Gerard anuncia que o famoso cantor italiano Mário Russo, além de nem ser italiano de verdade, é seu próprio irmão de sangue. Num instante, Gerard se transforma em celebridade local. Ser irmão de uma personalidade do mundo da música é suficiente para transformar o decadente Gerard numa das figuras mais badaladas do bairro. O que era apenas um barzinho sombrio ganha vida, se enche de música e se transforma, mas nunca o suficiente para transformar também a dor calada e sufocada do personagem principal.

    Nem Trens, Nem Aviões é um filme poético e sensível. Dentro do microcosmo formado pelo bar e seus freqüentadores, o diretor Stelling critica o isolamento do homem moderno, a alienação, e principalmente a falsa idolatria aos mitos criados pela mídia. E faz tudo isso sem ser discursivo, muitos menos panfletário. Tudo é muito sutil, desde a delicada luz que invade as janelas do bar, passando pela trilha sonora de Nicola Piovani (o mesmo de A Vida é Bela), até as ótimas interpretações de todo o elenco.

    Um filme que trata a tristeza humana com carinho e respeito. Um filme que – como diria Bonnie Tyler – “it´s a heartache”.



    4 de janeiro de 2001
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br