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    NO LUGAR ERRADO

    Longa experimental sai da mesmice em discurso e estética
    Por Cristina Tavelin
    26/08/2013

    Um cenário minimalista concentra dois puffs, algumas almofadas, latas de cerveja, dezenas de cigarros e quatro atores. No Lugar Errado teve como base a peça Eutro, de Rodrigo Fischer, e se ateve à simplicidade do palco. O deslocamento para o cinema trouxe o título reflexivo e o experimentalismo bem-vindo à sua abordagem sobre o vazio.

    Exibido na 35ª edição da Mostra de São Paulo, é o terceiro filme do grupo composto por Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti - Estrada para Ythaca e Os Monstros o antecedem.

    A trama se passa durante a noite na qual Fred e sua namorada recebem um casal de amigos para uma festa. O reencontro exaltado após a longa viagem dos visitantes se transforma aos poucos: a saudade dá lugar à uma rede de histórias complexas, vínculos feitos e desfeitos, amizade, sexo e amor entrelaçados de forma confusa. Com algumas latas de cerveja na cabeça, os quatro começam a lavar a roupa suja.

    O ambiente escuro e a fotografia em preto-e-branco engolem os personagens. Às vezes, vê-se apenas pedaço de um ou de outro. A câmera fica imóvel quando um deles sai de cena. Pernas, braços ou olhares ganham a atenção da câmera quando menos se espera. Assim, vemos o que não costuma ser mostrado nas telas. Esse experimentalismo faz de No Lugar Errado uma obra esteticamente interessante.

    Claro, ele mantém o foco principalmente no sentimento de tensão entre os personagens, que desenvolvem diálogos interessantes, pouco óbvios, mas caem diversas vezes em dramas exagerados. Ações e reações parecem fazer parte de um jogo adolescente e não conseguem ser justificadas pela quantidade de álcool ingerido, apesar de o filme induzir essa ideia.

    Bebendo e fumando sem parar, os quatro mais parecem formar um bando em busca autoafirmação. Se, por um lado, essa postura torna previsível a instabilidade, por outro, enfatiza ainda mais um sentimento de vazio, do exagero colocado em relações frágeis por pessoas transbordando de tanta carência.

    As paisagens noturnas onde nada acontece, apenas carros passam, enfatizam ainda mais o quão descartáveis podem ser as noites, baladas e demais comemorações amplificadas. A falta de clareza no ambiente se reflete nos personagens e vice-versa.

    Sem grande desfecho – algo positivo se pensarmos na ideia do vazio latente –, No Lugar Errado termina com o mesmo sentimento opaco de seu início, quase a intermitência de um pesadelo. Não explora muito os motivos de sua estética, mas, graças ao jogo de enfoques, consegue desvencilhar-se do teatro.

    Saindo da mesmice na forma e dando uma leitura caricata da superficialidade, o longa merece tempo para ser visto e descoberto nas entrelinhas do cinema nacional.