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    NOTA DE RODAPÉ

    Longa mostra nas entrelinhas até onde uma rivalidade entre pai e filho pode chegar<br />
    Por Cristina Tavelin
    11/12/2012

    Na vida de um filho, a figura do pai surge como “o outro”, aquele que vai quebrar seu vínculo aparentemente eterno com a mãe. Além de progenitor, é um rival, segundo pensamento bem freudiano. Nota de Rodapé explora esse embate e todos os pormenores dessa relação de forma contundente. Não à toa, o filme escrito e dirigido pelo israelense Joseph Cedar (Beaufort) venceu a categoria de Melhor Roteiro no Festival de Cannes.

    Falado em Hebraico, o longa conta a história de Eliezer (Shlomo Bar-Aba) e seu filho Uriel Shkolnik (Lior Ashkenazi), professores que dedicaram a vida ao estudo do Talmude, livro sagrado do judaísmo. Eliezer jamais foi reconhecido por seu trabalho de 30 anos de pesquisa. Seu único feito na vida foi ter uma nota de rodapé no livro de um professor. Por outro lado, Uriel é um acadêmico em ascensão com diversas obras publicadas e que gosta de ser bajulado.

    Um plano-sequência logo no início evidencia, por meio da expressão do ator Shlomo Bar-Aba, o maior dilema do longa. Enquanto Uriel faz um discurso para agradecer mais um prêmio recebido, a câmera paralisada em Eliezer registra seu transtorno. O personagem está envolto em um misto de inveja e vergonha por ter sido arrebatado por tal sentimento. Exprime uma decepção desoladora por nunca ter ganhado nada.

    A interpretação dos protagonistas é excelente e dá o tom melancólico da família pouco unida. Já os coadjuvantes, apesar da boa atuação, poderiam ter tido mais destaque. A esposa e o filho de Uriel não têm muito espaço para criar uma identidade dentro do longa.

    O pai é tomado por um complexo de inferioridade que também mostra uma característica da cultura atual: o velho não é mais visto como um homem cheio de sabedoria, mas como uma pessoa ultrapassada, que é deixada lado e parece inconveniente em contraponto ao pragmatismo dos mais jovens.

    Apesar de Nota de Rodapé ser um filme psicológico e profundo, não cai em clichês dramáticos e pedantismo existencialista - exceção louvável nos dias de hoje. Têm momentos engraçados e enquadramentos criativos, além de bom ritmo. Exemplo disso se vê nos dois seguimentos enumerando as razões de pai e filho serem como são.

    Quando Eliezer é informado que ganhou o Prêmio de Israel, almejado durante décadas, Uriel se vê diante de um dilema, pois é o verdadeiro vencedor. A confusão se dá por causa do sobrenome dos dois. Daí em diante, o filho entra em um conflito próprio após ler entrevista do pai denegrindo seu trabalho “superficial”.

    Vingando-se de Uriel ao expor suas falhas como pesquisador, Eliezer parece castigar uma geração que o excluiu. Uma alusão à internet e sua superficialidade imediatista? Certamente. A tradição religiosa é colocada em xeque diante da burocracia e dos tempos pós-modernos, ainda mais quando o assunto se torna familiar.

    O filme possui diversas camadas, um emaranhado de temas e sentimentos tão complexos quanto a própria vida. Muitas cenas deixam o essencial nas estrelinhas, no que não é dito. A nota de rodapé, nesse caso, diz mais que muitas páginas de um livro.