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    NOVE CRÔNICAS PARA UM CORAÇÃO AOS BERROS

    Muitas referências que dizem pouco ou nada
    Por Roberto Guerra
    30/09/2013

    Este filme independente brasileiro reflete na tela a maneira como foi feito. O estreante em longa-metragem Gustavo Galvão queria filmar, mas não tinha um projeto bem-acabado em mãos. Reuniu umas coisas que havia escrito e, com a ajuda da diretora e roteirista Cristiane Oliveira, fez um roteiro; ou algo parecido. Juntou uma equipe e rodou nos fins de semana. Coube ao montador Marcius Barbieri tentar dar unidade à desordem.

    Pode-se argumentar, num esforço destemido de alegação, que o longa se aproxima da instabilidade da vida real. A irregularidade, no entanto, deveria dizer respeito somente aos personagens e não à execução do filme. Nove Crônicas é como aquelas redações que fazíamos no início de ano letivo, invariavelmente intitulada "Minhas férias". Por mais especiais que fossem nossas recordações, era preciso ordenar os acontecimentos, colocar vírgulas e pontos, mostrar capacidade de arrazoar. Nota vermelha para o diretor pela desconexão.

    Galvão ambienta todas as nove e episódicas histórias citadas no título em locais decadentes, obscuros, de paredes descascadas e entulhado de objetos. O propósito é refletir nos ambientes o estado de espírito de seus personagens problemáticos e em crise. Mas a analogia não funciona como deveria; a correlação é tacanha. 

    Entre eles há um alemão que se sente culpado por ter de levar adiante a demolição de um edifício, uma mulher que não consegue esquecer seu ex, a garota de programa que sonha em deixar o prostíbulo e um filho e sua mãe escravos da rotina tediosa. Não citarei as demais tramas, até por que algumas são bem desinteressantes e sem propósito, como a ambientada numa oficina mecânica.

    Em comum, todos os personagens passam por dilemas existências e/ou amorosos. Suas vidas são vazias, desinteressantes e fustigadas pelo cotidiano massacrante tipicamente urbano. Esses tipos sem rumo são expostos de forma excessivamente teatral, recitando diálogos ora tolos ora densos que nada acrescentam – o discurso pelo discurso. Mesmo os silêncios eloquentes carecem de retórica.

    Na forma os erros também se sucedem. Recursos como planos-sequência longos, câmera na mão, planos abertos, closes... Tudo é usado sem propósito narrativo plausível ou sólido. Galvão comete o conhecido mal que assola diretores brasileiros: demoram a fazer um filme e quando fazem querem mostrar tudo que sabem, tratar de todos os assuntos e pontuar a obra com todas as referências possíveis. Invariavelmente, não dá certo.