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    O ABUTRE

    Mistura de drama, horror e humor-negro, longa é instigante
    Por Daniel Reininger
    15/12/2014

    O Abutre é um filme sombrio e niilista sobre os males da mídia moderna e como a sociedade incentiva essa insanidade que toma conta de jornais do mundo todo, sempre interessados em violência ou cenas chocantes. Estreia na direção do roteirista Dan Gilroy (O Legado Bourne), o longa é pesado, cruel e, estranhamente, divertido, além de apresentar uma das atuações mais esquisitas e impactantes de Jake Gyllenhaal.

    O ator vive Lou Bloom, que logo na cena de abertura ataca um guarda de uma empresa e rouba grades para vender o metal. O protagonista, claramente, tem problemas de socialização, mas tenta esconder a frieza e falta de empatia ao emular falas positivistas, como se estivesse citando livros de autoajuda. Ele se esforça para parecer inocente e simpático, porém algo sombrio transparece por meio de seu olhar.

    Desempregado e sem amigos, Lou é extremamente ambicioso, apenas não descobriu como fazer dinheiro fácil. Isso muda quando cruza com uma equipe de cinegrafistas que vive de caçar acidentes e cenas de crimes para vender para o noticiário local. O rapaz logo percebe uma oportunidade, rouba uma bicicleta e a troca por sua primeira câmera e rádio da polícia a fim de fazer dinheiro com a miséria dos outros.

    A falta de consciência ou moralidade transformam Lou em um fenômeno. Ele não só captura grandes imagens, como manipula cenas de crime quando ninguém está olhando, filma acidentes em closes quase pornográficos e provoca incidentes para que possa ser o primeiro no local. O filme afirma que "se você está vendo uma câmera, provavelmente está tendo o pior dia de sua vida", mas se Bloom está por trás da lente, esse também pode ser seu último. Ao longo da narrativa, descobrimos quão longe o protagonista está disposto a ir para conseguir imagens lucrativas. Afinal, quanto mais sangue, melhor para a emissora de TV.

    O inteligente roteiro de Gilroy evita fazer julgamentos sobre as atitudes do protagonista. Ele apenas explora um mercado lucrativo com imagens grotescas que emissoras e público querem ver. O diretor prefere escancarar a realidade do telejornalismo, deixando claro que tudo não passa de um negócio, no qual crimes contra minorias são ignorados em prol de incidentes com brancos ricos, fato que o personagem de Rene Russo, editora de um noticiário local, vê com naturalidade, simples caso de oferta e demanda.

    Ao ser filmada sempre à noite, sob luzes neon, faróis de automóveis e sirenes, Los Angeles parece um local assolado por sua própria sujeira. Como em Cidade Dos Sonhos, de David Lynch, ou Drive, de Nicolas Winding Refn, a câmera de Gilroy encontra algo podre por baixo da superfície da cidade e o diretor de fotografia, Robert Elswit, captura essa decadência com muita habilidade.

    Instigante, com elementos de drama, horror e momentos de humor negro, Abutre é incômodo e não procura explicar a realidade que escancara, apenas cria uma narrativa interessante a partir dela. Ótimas atuações, atmosfera decadente e narrativa fluida fazem desse longa uma das melhores produções de 2014, além de proporcionar a chance de discutir o papel da mídia na sociedade moderna.