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    O ANJO

    Por Sara Cerqueira
    17/04/2019

    Filmes de perseguição policial ou sobre a ascensão e queda de criminosos famosos sempre chamaram atenção do grande público. Clássicos como Bonnie E Clyde - Uma Rajada De Balas eternizaram no imaginário coletivo o estilo de vida perigoso de foras-da-lei, que geralmente têm finais trágicos e sanguinolentos. Entretanto, em O Anjo, obra mais recente do diretor argentino Luis Ortega, conhecemos a face menos estereotipada e mais chocante da perversidade, baseada em um dos assassinos mais cruéis da história da Argentina.

    No longa, testemunhamos a história de Carlos Robledo Punch (Lorenzo Ferro), garoto de classe média, de aparência inocente e corpo franzino, mas que esconde um currículo no crime extenso para sua idade: inúmeros furtos e roubos a casas de alto padrão. Ao conhecer o jovem Ramón (Chino Darín), os dois dão início a uma grande onda de roubos e assaltos a mão armada em Buenos Aires, vendendo quadros, joias e outros objetos para colecionadores e compradores do mercado ilegal. Contudo, durante o longa, descobrimos que os ímpetos criminosos de Carlos são piores e mais sádicos que aos de um simples assaltante juvenil.

    Aqui, Ortega aborda o submundo do crime com naturalidade, jovialidade e beleza, evitando quase que totalmente o macabro e o peso da moralidade típicos do subgênero (o que é um bocado chocante e desconcertante às vezes). Além disso, o longa não se limita a mostrar os crimes cometidos por um assassino em série na década de 70, mas também racionaliza questões referentes à identidade, sexualidade e as relações de companheirismo e amizade que Carlos tem com Ramón. Sentir empatia e logo em seguida total terror e asco pelo assassino é uma constante do longa, que oferece um protagonista cheio de camadas a serem questionadas.

    O cast do filme carrega boa parte do peso narrativo. O ator Lorenzo Ferro nos entrega um protagonista cativante e sedutor, mas que nos mantém reféns de sua personalidade volátil e atitudes violentas. Cheio de maneirismos e olhares insinuantes, ele consegue aspirar vários sentimentos em uma única cena. Interpretação fenomenal para um ator de tão pouca idade: apenas 20 anos.

    Chino Darín dá vida ao lado mais humano e empático da dupla, seduzido e deslumbrado por um estilo de vida mais glamuroso que o crime pode proporcionar. Perdido entre melhorar seu estilo de vida e nutrir sua amizade e sentimentos por Carlos (há claramente uma tensão sexual entre ambos), ele não reconhece o tipo de pessoa que seu amigo realmente é e aspira a ser. A ingenuidade dele perto de Carlos (apesar de bem mais velho que o companheiro) é latente.

    Com uma trilha-sonora deliciosa, paleta de cores repleta de tons contrastantes e estética típica da época, O Anjo funciona para os amantes de suspense e drama, além de abordar questões como sociopatia, moralidade e mente criminosa. Vale a pena!