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    O ANO DE 1985

    Por Sara Cerqueira
    09/05/2019

    Em 1981, o mundo conhecia a AIDS e reconhecia a doença como algo grave. Entretanto, médicos e cientistas ainda tinham enorme dificuldade em saber sobre as formas de contágio, o agente causador, medicamentos que pudessem combatê-lo e as consequências dos remédios para a saúde. Demorou-se o que pareceu ser uma verdadeira eternidade para que as pessoas infectadas pudessem ter uma real esperança em viver mais e melhor com o vírus.

    Na chegada dos anos 2000, a doença havia matado 12 milhões de pessoas ao redor de todo o mundo. Um massacre injusto e cruel com pessoas que pouco entendiam do que sofriam. Além da dor da morte, do estigma social e do preconceito, o mais profundo desconhecimento.

    O Ano de 1985, dirigido pelo americano Yen Tan, retrata o pânico, a dor e a solidão do fardo do HIV e da AIDS sobre soropositivos. No auge da epidemia, o protagonista Adrian (Cory Michael Smith) volta para sua cidade natal, para passar as festas de fim de ano com a família, extremamente religiosa. Fragilizado devido à perda do namorado para a AIDS, ele luta para se reaproximar dos pais, do irmão mais novo e de uma amiga de infância, enquanto decide se revela ou guarda seus segredos mais íntimos.

    Aqui, Yen Ten não economiza no caráter fúnebre característico da época, e nos entrega uma película tomada pela melancolia e pela vergonha (o preto e branco do filme potencializa isso muito bem).

    Enquanto tenta esconder sua situação de desamparo físico e emocional, Adrian tenta manter ao máximo a fachada da felicidade e da animação por encontrar a família novamente, o que representa e muito bem os estigmas que a população LGBT tinha que carregar na época (e carrega até hoje) e as vidas duplas que muitos eram forçados a viver. Além disso, termos como "o câncer gay" ou a "peste homossexual" embutiam culpa pela doença em um grupo que já muito havia sofrido.

    O trabalho entregue pelo elenco é muito eficiente, não somente devido ao talento dos atores mas também às camadas e arcos dramáticos dos próprios personagens. Cory Michael Smith interpreta o protagonista de maneira muito íntima e solitária, nos passando um constate incômodo e sensação de não pertencimento com o passar do filme, uma vez que sua angústia por não contar a verdade aumenta gradativamente. Seus pais (interpretados por Virginia Madsen e Michael Chiklis) representam bem a influência tóxica do discurso extremista religioso e conservador nas relações familiares sem recair totalmente em estereótipos, dando a nós um gostinho de esperança e otimismo pelo futuro.

    Destaque para os atores Aidan Langford e Jamie Chung, que interpretam respectivamente o irmão mais novo e a antiga amiga do protagonista. Ambos trabalham muito bem e marcam presença nas cenas mais emocionantes e reconfortantes da história, aliviando a dor de Adrian.

    Apesar de não inovar ao tratar de um tema já tão conhecido, O Ano De 1985 é uma bela narrativa sobre um período nefasto da história humana. Assistir ao filme é conhecer o lado mais pessoal de uma catástrofe coletiva. É a dramatização de milhões de histórias vividas e terminadas em batalha. Vale a pena.