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    O CAPITAL

    Costa Gravas faz divertida crônica do mercado financeiro
    Por Roberto Guerra
    02/10/2013

    Marc Tourneuil, personagem central deste longo do diretor Costa Gravas (de Z e O Corte), diz a certa altura referindo-se ao rumo de sua carreira: "A conjuntura decidirá". Sua mulher pergunta o que seria a tal conjuntura. Ele responde: "Uma puta gorda que dirige tudo em todo o lugar".

    Nessa crônica divertida sobre a psicopatologia dos mercados financeiros o jovem e ambicioso Tourneuil expressa, com sua frase, a imprevisibilidade de um mundo regido insensivelmente pelo lucro. Mesmo ele, jogador habilidoso, corre o filme sentido o reçar da navalha no pescoço. Puxa tapetes aqui e ali e tenta evitar a todo custo que puxem o seu.

    Tourneuil é nomeado presidente biônico de um grande banco francês quando seu chefe deixa o cargo para tratar da saúde. A nomeação é temporária, estratégica - o conselho administrativo da corporação quer usá-lo como espécie de marionete enquanto a verdadeira transição de poder se dá nos bastidores.

    O ambicioso Marc tem outros planos, no entanto. Assim que sua nomeação é divulgada pela imprensa, deixa claro que não pretende ser um CEO de fachada. Põe as manguinhas de fora, toma decisões, faz exigências e deixa o ex-diretor e demais acionistas em polvorosa; mas estes não podem fazer muito por enquanto.

    Gravas faz de seu personagem central um tipo interessante e afastado do lugar-comum. Tourneuil (Gad Elmaleh, pacimonioso na medida certa) é inteligente, ambicioso, mas também autocrítico e cínico diante de suas decisões. Em diversos momentos, recheados de comicidade, vemos a encenação de seus pensamentos, do que queria fazer versus o que faz de fato.

    O cineasta também merece elogios pela habilidade insuspeita em transformar um drama sobre bancos e investimentos em algo atraente. Isso ocorre graças à dinâmica de thriller que dá à história, concentrada principalmente na relação marcada por um jogo de coação entre Marc e um especulador financeiro vivido por Gabriel Byrne.

    O Capital tem trama elementar sobre o mercado financeiro e toda a desfaçatez e falta de escrúpulos de homens que jogam o jogo de burlar as regras do jogo. Nada de novo no front. O filme, no entanto, tem um desenrolar moderno e envolvente - sem nunca ser previsível ou desinteressante - graças à boa mão de Costa Gravas, que, felizmente, não é escravo da puta gorda.