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    O CÉU É DE VERDADE

    Adaptação é preguiçosa e cheia de situações supérfluas
    Por Roberto Guerra
    01/07/2014

    Como diz o adágio, não se faz omelete sem quebrar os ovos. O diretor e roteirista Randal Wallace (Fomos Heróis) parece ter esquecido isso ao adaptar para as telas o best-seller O Céu é de Verdade, que vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo desde seu lançamento em 2010.

    Não se discute que a história do menino que tem uma experiência de quase morte e diz ter visitado o céu e conversado com Jesus é atraente e tem grande potencial de público – o sucesso editorial prova isso. Mas a estrutura narrativa de um filme nada tem a ver com a de um livro.

    Wallace ignorou as particularidades do cinema no processo de adaptação. Fez um filme carregado de acontecimentos supérfluos para ocupar o tempo enquanto o ato principal não se desenrola - o que não seria problema se as subtramas formassem uma conjuntura de verdade, com fatos apresentando lógica de causa e efeito.

    O Céu é de Verdade faz seu preâmbulo nos apresentando o reverendo Todd Burpo (Greg Kinnear, de Pequena Miss Sunshine), cujo filho Colton (Connor Corum) viverá a experiência transcendental. Burpo tem um pequeno negócio que não vai bem, trabalha como bombeiro voluntário e pastor da congregação local. O filme é enfático em mostrar que ele não está num ano bom e tem dificuldades em pagar as contas.

    Mas os problemas financeiros da família são um dos elementos do qual o filme prescinde. Parecem ter alguma relevância para a trama, mas não têm. Servem apenas para fazer o tempo passar. Assim como um acidente que Todd sofre quando está jogando softbol. O diretor dramatiza a sequência, a explora posteriormente e induz o público a pensar que tem alguma influência no contexto, mas é pura encheção de linguiça.

    Chega-se então ao que interessa. Colton é levado às pressas para um hospital onde é submetido a uma cirurgia de emergência. Todd e a esposa, Sonja (Kelly Reilly, de Sherlock Holmes), ficam em pânico porque o caso é grave o menino corre risco de vida. Colton escapa milagrosamente, mas o que vem depois é o que verdadeiramente surpreende seus pais.

    O garoto começa a contar, com naturalidade e riqueza de detalhes, sua viagem de ida e volta ao céu, onde foi recebido pessoalmente por Jesus. O pai desconfia de que seja só a cabeça fantasiosa de uma criança em ação, até Colton começar a relatar acontecimentos que não teria como saber.

    Mesmo quando passa a se concentrar na experiência espiritual do menino, O Céu é de Verdade não alça voo. A crise de fé que o relato de Colton suscita na cabeça do pai - para quem a noção de "céu" é um conceito teológico abstrato - não é suficientemente explorada, mesmo que Greg Kinnear consiga mostrar convicção e dúvida de forma bem clara em sua interpretação.

    De ritmo oscilante e pesando a mão na trilha sonora incidental para força o espectador a se emocionar, O Céu é de Verdade pode até mesmo não satisfazer alguns fãs da obra literária. Os relatos do menino contidos no livro deram asas à imaginação de milhões de leitores pelo mundo, mas Randal Wallace não trabalhou suficientemente o roteiro para transpor a experiência para as telas. Quis fazer omelete sem quebrar os ovos.