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    O DISCURSO DO REI

    Tecnicamente irretocável, filme estrelado por Colin Firth e Geoffrey Rush é insosso e previsível<br />
    Por Heitor Augusto
    08/02/2011

    Irretocável, mas mesmo assim falta tempero. Não falo de algum prato preguiçosamente preparado, mas de O Discurso do Rei, um filme que tem todos os parafusos nos seus exatos lugares. Talvez justamente seja esse o maior incômodo após a sessão.

    A direção de arte reconstroi cenários, figurinos e opta por uma luz que recorde os anos 1930 de forma colorida. A direção é discreta e opta sempre pelo previsível. O roteiro, apesar dos diálogos perspicazes, desenvolve a história sem surpresas. A montagem articula as sequências seguindo o bê-á-bá. Talvez o trio principal de atores – Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter – seja o único elemento do filme que foge minimamente dos padrões.

    O Discurso do Rei parece um filme embalado com um selo de qualidade a indicar para o espectador que ele não vai se decepcionar. Se estiver esperando por uma história sem percalços de compreensão e contada com dignidade, não haverá frustração. Mas o longa-metragem de Tom Hopper, indicado a 12 estatuetas do Oscar deste ano, poderia ser mais ousado.

    Uma direção mais solta ajudaria tremendamente a contar a história do futuro rei George VI (Firth) que, para curar sua castradora gagueira, recorre aos métodos pouco ortodoxos de Lionel Longue (Rush) e conta com o apoio incondicional da esposa (Carter). Também seria bem-vindo um esforço do roteiro do veteraníssimo David Seidler para tentar traduzir a repressão vivida por George VI não só pelos diálogos, mas também na estrutura.

    Mas Hopper decide entregar uma parte considerável do filme na mão dos atores. Claro que o resultado é satisfatório, afinal Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter são três atores que têm “giro”, ou seja, pegam o que o diretor os leva e transformam em algo além. Mas fica um gosto de falta alguma coisa a mais.

    Entrelinhas

    Quando Hopper decide sugerir ao espectador em vez de afirmar, sai coisas boas e até poéticas do filme. Numa sequência importante no final do filme, a direção escolhe, ao lado do compositor Alexandre Desplat, colocar um pedaço editado do segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Tiro e queda: o acontecimento toma proporções épicas e o filme ganha em poesia.

    No geral, O Discurso do Rei é Aristotélico demais. Tudo tem um porquê, o qual é demonstrado e não há espaço para dúvidas. Os elementos psicológicos são dados de bandeja, pré-mastigados por um filme que não provoca o espectador a ir em sua direção. Até mesmo a boa ambientação dos costumes de época, o impacto para um cidadão comum conversar com a família real, as razões que permitiram a amizade de Lionel e George VI, a força da voz no momento de expansão do rádio e a raiz da gagueira do rei são entregues sem maiores dificuldades.

    Tudo está correto em O Discurso do Rei. Colin Firth deve sair com a estatueta de Melhor Ator, Tom Hopper chega com força para levar Direção e Filme, o Figurino de Jenny Beavan também deve levar seu Oscar e por aí vai. Mesmo assim, a perfeição formal não esconde o que há de insosso no filme.