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    O ESCRITOR FANTASMA

    Polanski faz um empolgante tratado sobre a mentira, o irreal, a manipulação dos fatos<br />
    Por Celso Sabadin
    14/06/2010

    Embora o título sugira um filme de terror, O Escritor Fantasma é um suspense investigativo. E não cabe aqui culpa à distribuidora brasileira, já que o título original - The Ghost Writer - não tem exatamente uma tradução para o nosso idioma. Tanto em inglês como em português, a expressão ghost writer designa uma pessoa que escreve em nome de outra. Trata-se de uma atividade muito comum na redação de discursos políticos, palestras e "auto"-biografias.

    No caso do filme, o "fantasma" em questão é um escritor (do qual não saberemos o nome) vivido por Ewan McGregor. Logo no começo da trama cai em seu colo um trabalho dos mais desafiadores: ele deverá realizar uma série de entrevistas com Adam Lang (Pierce Brosnan), ninguém menos que o Primeiro Ministro que comandou a Inglaterra na época da Guerra do Iraque (fictício, é claro, pois na realidade foi Tony Blair). A ideia é que estas entrevistas sejam editadas pelo “Fantasma” sob a forma de “auto-biografia” de Lang. Seria um trabalho dos sonhos, que renderia prestígio e um bom dinheiro ao escritor, não fossem por dois inquietantes motivos: Lang acaba de ser acusado de crimes de guerra durante a Guerra do Iraque e o escritor fantasma, que estava anteriormente escrevendo o tal livro, foi misteriosamente encontrado morto.

    E as preocupações do protagonista não param por aí. Como o conteúdo do livro deve permanecer totalmente sigiloso até a sua publicação, ele trabalhará dentro de um rígido esquema de segurança, isolado no casarão que funciona como quartel general do ex-Primeiro Ministro. Está armado o clima de suspense: isolamento, morte misteriosa, trama política, muito dinheiro envolvido. Adicione-se uma esposa ciumenta, uma belíssima casa envidraçada na beira de uma praia nebulosa e mistérios que só serão resolvidos no último minuto do filme.

    Tudo isso sob a direção do mítico Roman Polanski, o mesmo de O Pianista, Chinatown e O Bebê de Rosemary, entre vários outros. Uma direção que faz toda a diferença. Prestes a completar 77 anos, Polanski mostra que continua em plena forma. É um mestre na arte cinematográfica da ilusão, dosando com precisão tudo o que sua câmera precisa mostrar, e principalmente tudo o que ela precisa esconder. Corta ou estende seus planos em tempos precisos, criando não apenas ritmo e fluência no filme, como também um eterno sabor de “quero um pouco mais”, mesmo após mais de duas horas de projeção, que por sinal passam voando.

    Se em Chinatown Polanski homenageou o filme noir e em O Pianista ele reverencia o gênero de guerra, aqui em O Escritor Fantasma o diretor bebe com gosto na fonte dos melhores filmes de suspense. Sim, com forte sabor hitchcockiano, com direito até a momentos da trilha sonora comandados por vigorosos conjuntos de cordas, bem ao estilo de Bernard Herrmann, o compositor mais associado ao mestre do suspense.

    Além da ótima trilha do francês Alexandre Desplat (o mesmo de Cheri), o filme destila também todo um envolvente clima de mistério britânico (mesmo quando ambientado nos EUA), emoldurado por névoas, praias cinzentas e uma constante sensação de umidade.

    Baseado no livro de Robert Harris, O Escritor Fantasma é um empolgante tratado sobre a mentira, o irreal, a manipulação dos fatos. Uma co-produção entre Inglaterra, França e Alemanha que - com méritos - deu o Urso de Prata de melhor direção a Roman Polanski no Festival de Berlim 2010. Polanski que, por sinal, continua em prisão domiciliar enquanto responde a um antigo processo por estupro contra uma menor.