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    O FILHO ADOTIVO

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Depois do Butão (país produtor do filme A Copa), agora é a vez do cinema do Quirguistão chegar às telas do Brasil. Ex-república soviética encravada no lado asiático da antiga potência comunista, o Quirguistão uniu forças com a França para produzir o sensível O Filho Adotivo, uma das estréias deste final de semana.

    Tudo se passa numa pequena aldeia perdida no meio de um mundo completamente diferente do nosso. Uma cena estranha abre a narrativa: um bebê é passado por debaixo dos joelhos dobrados de cinco velhas senhoras, formalizando o que seria um tradicional ritual de adoção. A explicação deste gesto jamais será plenamente compreendida pelo público, já que ela consta apenas do press release do filme e nunca do roteiro. Para as platéias não familiarizadas com as tradições do Quirguistão, o enigma permanecerá.

    Lentamente, porém, a situação vai ficando mais clara. De maneira contemplativa e lacônica, o diretor Aktan Abdykalykov - neste seu longa-metragem de estréia - vai mostrando aos poucos o cotidiano simples e moleque de um grupo de crianças da aldeia. Elas brincam com lama, fogem de abelhas, brigam, jogam, ajudam na fabricação artesanal de tijolos, iniciam a descoberta da sexualidade. São crianças de feições orientais, de fala estranha, com nenhum contato com a chamada globalização, mas que se divertem como qualquer outra criança de qualquer outra parte do planeta. A linguagem da brincadeira e do divertimento puro e simples é mundial. É a matéria-prima humana no seu estado mais autêntico.

    Maliciosamente, os garotos moldam na terra molhada uma tosca escultura de uma mulher nua, onde todos eles se imaginarão iniciando suas vidas sexuais. Pelo menos por alguns segundos. Não sabem, porém, que eles próprios estão, aos poucos, sendo moldados pela vida. Durante alguns minutos, o diretor brinda o público com belas e distantes imagens de pura poesia, misturando sem cerimônias o colorido e o preto-e-branco. Quase não há música.

    É neste contexto bucólico e até minimalista que um dos meninos terá de amadurecer forçosamente mais rápido que os demais. Este garoto é Bashkempir, o bebê do início do filme, o filho adotivo do título que terá sua vida mudada por meio de tristes revelações.

    A rigor, trata-se de um rito de passagem, um pequeno e belo filme sobre o amadurecimento que todos nós sofremos ou iremos sofrer. Uns de forma mais branda, outros de forma mais traumática.

    O Filho Adotivo está longe de ser uma obra-prima, mas certamente merece ser conferido por quem aprecia uma cinematografia diferente, um estilo de filmar muito mais próximo ao iraniano que ao ocidental. Enfim, um belo trabalho que levou o Leopardo de Prata no Festival de Locarno, na Suíça, em 1998.

    29 de janeiro de 2001

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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br