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    O GATO DO RABINO

    Com cores vibrantes, animação questiona dogmas religiosos e intolerância com inteligência<br />
    Por Roberto Guerra
    23/08/2012

    Inspirado em premiada graphic novel francesa, do cineasta e quadrinista Joann Sfar (Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres), O Gato do Rabino é uma animação para adultos de excelente qualidade, roteiro inteligente e que, mesmo ambientada na década de 1920, dialoga com os dias atuais ao fazer uma bem-engendrada análise crítica do dogmatismo religioso e das fraquezas humanas, as da carne e as do espírito.

    A história se passa na Argélia e seus personagens principais são um rabino, sua filha e seu gato. Depois que devora o papagaio da família, o bichano começa a falar e o rabino resolve ensinar a ele os conceitos do judaísmo. O gato parece pouco interessado, mas topa a conversão para poder ficar perto de sua dona, a filha do rabino, por quem é apaixonado.

    A formação religiosa do gato, levada adiante pelo rabino, dá margem a diversos conflitos que envolvem o superior do rabino - que não quer nem ouvir falar da conversão de um animal – e o ceticismo do gato, que põe em dúvida os dogmas, confrotando-os com descobertas científicas.

    O Gato do Rabino, no entanto, não propõe uma crítica severa à religião tampouco o enaltecimento da ciência. Tudo é pontuado no filme de forma sutil e tratado com inteligência. O gato é um personagem cheio de malícia e cinismo que representa o questionador, ou seja, o tipo perfeito para personificar o ponto de vista antagônico, diferença com a qual muitas religiões têm dificuldade em lidar.

    Num segundo momento do filme, entra em cena um jovem pintor russo. Novamente temas como respeito à cultura e formas de pensamento alheias são abordados numa crítica a posições mais radicais e fundamentalistas. O russo está em busca de uma Jerusalém africana, iniciando uma viagem da qual o rabino e outros personagens de credos e convicções diferentes participam. Mesmo diante da diversidade da tripulação, eles se imbuem da missão de achar a cidade prometida, neste caso, um lugar no qual não há preconceito e todos vivem em comunhão - metáfora clara de uma velha utopia humana.

    A animação, vencedora do César da categoria em 2011 e do Grande Prêmio do Festival de Annecy, tem cores vibrantes e é uma festa para os olhos. Dividindo a direção com Antoine Delesvaux e o roteiro com Sandrina Jardel, Sfar conduz uma história bem-humorada sobre tolerância e alegria de viver em um miau, como anuncia o pôster brasileiro do filme.

    Em tempo: como dito na abertura deste texto, O Gato do Rabino é uma animação adulta. Crianças com menos de 12 anos provavelmente não se interessarão pela trama.