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    O GÊNIO E O LOUCO

    Por Sara Cerqueira
    22/04/2019

    Baseado na obra de Simon Winchester, o filme dirigido pelo iraniano-americano Farhad Safinia é um caixinha de surpresas. Nos primeiros quarenta minutos, presenciamos uma narrativa arrastada e um roteiro com grande dificuldade em manter o foco nos núcleos de personagens tão distintos, interpretados pelos monstros consagrados Mel Gibson e Sean Penn. Além disso, a presença insistente de subtramas fracas atravancava um filme que parecia se equilibrar delicadamente na corda bamba.

    Mas não há nada melhor que se surpreender positivamente e presenciar a ascensão de uma trama que parecia fadada à mediocridade.

    No século XIX, dois homens de personalidades e histórias totalmente diferentes unem esforços para construir um dos maiores marcos para a história ocidental da filologia e etimologia: o primeiro dicionário Oxford. James Murray (Mel Gibson) reúne uma junta de pesquisadores e acadêmicos para buscar o maior número de verbetes possíveis e a etimologia deles.

    Enfrentando inúmeros desafios e entraves no projeto, a equipe recebe a contribuição inesperada de William Minor (Sean Penn), um médico do exército americano internado em um manicômio judicial. Acometido pela genialidade e pela loucura, Minor se torna parte da vida e do trabalho de Murray, e os dois desenvolvem uma comovente e improvável amizade.

    A abordagem de um trabalho acadêmico extenso poderia ser por si só um grande entrave para conquistar a grande massa do público espectador. Os inúmeros problemas envolvendo a produção e direção da obra também contribuíram para seu primeiro ato perdido e morno; com o início de filmagens em 2016, o longa colecionou em três anos desde processos envolvendo direitos autorais à insatisfação de Mel Gibson e Farhad Safinia, que se diziam descontentes com o trabalho final. Tais dificuldades por certo tiveram peso no filme, que sofre para se manter lógico e constante na exposição de personagens e seus respectivos dramas. Entretanto, a força incontrolável do cast escolhido a dedo para os papéis consegue não somente manter o roteiro congruente mas também extremamente envolvente e emocionante.

    O trabalho de Mel Gibson e Sean Penn é estupendo. Gibson se torna irreconhecível como um homem apaixonado pelas palavras, mas preso a entraves burocráticos e às próprias limitações diante de um desafio que parece impossível. Com um sotaque britânico natural e aparência menos intimidante, o ator mais uma vez mostra a qualidade de seu trabalho como ator, além de suas habilidades inquestionáveis como roteirista e diretor que já conhecemos.

    No entanto, quem mais marca a película é o norte-americano Sean Penn. Ganhador de dois Oscars de Melhor Ator, Sobre Meninos E Lobos (2004) e Milk - A Voz Da Igualdade (2009), ele chega aqui no apogeu de sua carreira em um papel de pura entrega à dor, genialidade e loucura. É quase desconcertante vê-lo em cena e, se há ainda alguma lógica na academia, sua interpretação certamente irá lhe garantir um lugar no Oscar 2020 e, apesar de ser cedo ainda para dizer, a terceira estatueta.

    Destaque para o trabalho de Natalie Dormer, responsável por injetar o amor e sensibilidade retratados na obra, Stephen Dillane, por simbolizar o lado mais humano e menos estereotipado da ciência e Eddie Marsan, que guia a perspectiva do público de maneira contida, mas envolvente.

    Mesmo com seus deslizes, O Gênio e o Louco têm muito a dizer e a despertar no espectador. Com um trabalho de elenco deslumbrante e uma história mais que digna de ser contada, a obra nos toca e nos prova que um filme valoroso pode ter sim suas falhas. Nos cabe apreciar o que há de melhor nele.