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    O GRANDE CHEFE

    Por Angélica Bito
    22/05/2009

    O cineasta Lars Von Trier possui uma das mais peculiares mentes pensantes no cinema atual. Sua peculiaridade não é no sentido ruim da palavra, muito pelo contrário: sua forma única de ver o cinema fez com que ele criasse alguns dos filmes mais inventivos dos últimos anos, como Europa (1991), Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003). Além disso, ao lado de outros cineastas dinamarqueses - como Thomas Vinterberg (Querida Wendy) - criou o movimento Dogma 95, um sopro no cinema mundial ocorrido nos anos 90. É com alguns elementos desse manifesto que ele se insere no gênero da comédia - pouco explorado em sua filmografia - em O Grande Chefe, que já chega com a proposta de "tirar sarro de uma cultura metida a besta", conforme o diretor elucida durante o filme.

    Trier leva o ambiente artístico ao corporativo - dicotômicos, em sua concepção - ao criar a história de o ator desempregado e mal-sucedido Kristoffer (Jens Albinus), contratado por Ravn (Peter Gantzler), um empresário inescrupuloso, porém carismático. Ele criou uma farsa em sua companhia: para não ter todas as responsabilidades sociais e o conseqüente ódio de seus funcionários, inventou ser um mero funcionário que recebe ordens de um chefe fictício. Mas, para completar uma transação, precisa dar forma ao dono da empresa. A forma é incorporada pelo ator contratado. No entanto, na convivência, o ator começa a criar laços afetivos com os seus funcionários da empresa, impedindo sua missão neste trabalho.

    Apesar de já avisar ao espectador sua falta de intenção em relação à reflexão, Trier explora algumas questões importantes na sociedade moderna, como a frieza no tratamento humano dentro das corporações e a forma como isso pode acabar não se realizando quando se cria uma pequena sociedade criada dentro de uma empresa. A relação entre os personagens torna-se tão real e palpável que o ambiente corporativo, baseado em farsas, é "humanizado" pela presença de um ator. Desta forma, O Grande Chefe também pode ser visto como uma tentativa do próprio diretor em "humanizar" a comédia "quadradas", de fórmulas prontas, feitas atualmente. Ironicamente, foram usadas câmeras controladas por computadores na direção deste longa (uma nova técnica chamada Automavision), dando esse distanciamento frio à direção com enquadramentos estranhos, porém interessantes.

    O Grande Chefe traz alguns elementos cinematográficos propostos pelo Dogma 95, como a ausência de trilha sonora e iluminação artificial; desta forma, a narrativa e atuações são mais valorizadas do que esses artifícios cinematográficos. O Grande Chefe brinca com as fórmulas pré-concebidas desse gênero e as intenções do diretor são explicitadas com sua narração durante o longa. Trier faz questão de interromper a história quando bem entende para explicar suas escolhas na concepção do longa - inclusive na idéia de simplesmente fazer um filme despretensioso, que não exige reflexão após a projeção, ao contrário da maioria de seus trabalhos. Isso já faz com que esta comédia seja totalmente diferente do convencional; trata-se de uma visão muito particular do cineasta e isso já vale o ingresso, principalmente para os que admiram suas escolhas autorais.

    Em tempo: Trier escondeu em O Grande Chefe uma série de dicas visuais que, juntas, formam um código a ser decifrado. O jogo se chama Lookey, contração da frase em inglês "Look for the key" (algo como "procure pela chave"). As dicas estão fora do contexto visual da produção.