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    O GRÃO

    Ótimo drama sobre relações familiares, morte e tempo. Mais uma boa produção vinda do Ceará<br />
    Por Heitor Augusto
    12/07/2010

    Quando cheguei ao Cine Ceará de 2008, comentava-se uma produção local que já havia sido premiada na Mostra de Tiradentes fruto da parceria do diretor e roteirista Petrus Cariry com o fotógrafo Ivo Lopes Araújo.

    Dois anos se foram e, depois de muitos festivais, finalmente O Grão estreia no circuito. Para o bem do cinema, por sinal. Temos nesse filme um tratado emocional e uma fábula afetuosa sobre a passagem do tempo, a finitude e a da dor causada pelo fim de um ciclo vital.

    No interior do Ceará, vive uma família. A avó Perpétia (Leuda Bandeira) e o neto Zeca (Luís Felipe Ferreira) têm uma relação especial que permite romper o silêncio reinante na casa. A mãe, Josefa (Veronica Cavalcante), e o pai, Damião (Nanego Lira), sobrevivem com o ar rude que Graciliano já revelara em Vidas Secas. A filha mais velha, Fátima, é a única que almeja sair daquele fim de mundo e ir para a capital Fortaleza.

    O que primeiro chama a atenção em O Grão é como o cinema tem olhado e representado o sertão. No Cinema Novo e nos filmes de Glauber Rocha, representava o Brasil puro que servia de metáfora aos problemas sociais, símbolo de um país que ainda teria de ser apresentado.

    Os pernambucanos do litoral inauguraram um novo capítulo com Baile Perfumado e seguiram assim com Cinema, Aspirinas e Urubus. O sertão havia se tornado líquido, como definira Luiz Zanin Oricchio em Cinema de Novo, e espaço de sentimento, não de questões sociais.

    Neste sertão se expande a emoção de O Grão. Calma, poucos diálogos, câmera estática e planos muito bem construídos. Esse filme faz com que o mundo pare e observemos o amor do neto e da avó, o desamor entre mãe e pai e a conexão urbana da irmã. Para além da história, Petrus Cariry e Ivo Lopes Araújo buscam o detalhe na representação da imagem.

    O filme se filia no conceito de antropologia visual, na imagem que observa o real. Em O Grão, o espaço no qual os personagens estão situados são “verdadeiros” e até já o vimos em Abril Despedaçado, por exemplo. Mas seus personagens são inteiramente cinematográficos. Com O Grão, a vida vai ao cinema e nos mostra como a morte abala os laços afetuosos.

    Entre a enxurrada de filmes medíocres que povoam as salas de cinema, o longa de Cariry é uma honra à cinematografia brasileira por suportar uma discussão para além do “gostei ou não gostei” e provocar nossa reação aos muitos Brasis. Pena que o espaço para esse tipo de filme que precisa de tempo para encontrar seu público é minúsculo.

    O Grão também serve de puxão de alerta para a produção jovem do Ceará, concentrada na produtora Alumbramento, que tem dado exemplo de criatividade e busca de novos caminhos para o cinema. A ponta de uma longa corda comum nos festivais, mas ausente do circuito comercial.