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    O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS

    Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira são estrelas deste ótimo documentário<br />
    Por Heitor Augusto
    15/12/2009

    Quando publicou Os Sertões em 1902, Euclides da Cunha estruturou o entendimento sobre Canudos em três partes, o Homem, a Terra e a Luta. O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, faz o mesmo com Humberto Teixeira: o compositor é o homem; a terra é o sertão; a luta, no caso o tema, o baião. Um mergulho com uma mistura continua dessas três abordagens.

    No documentário, o Doutor do Baião, apelido dado por Luiz Gonzaga a Humberto Teixeira, é colocado como fruto de um lugar e de seu tempo. Assim como havia feito em Cartola – Música Para os Olhos, o diretor apura a contextualização, em vez de optar por uma idealização romântica de seu personagem.

    Entrevistas e performances de Caetano Veloso, Raimundo Fagner, Lirinha, David Byrne e até mesmo de uma japonesa interpretando Paraíba Masculina em um pub eletrizam o documentário e apresentam o principal personagem, Humberto Teixeira.

    Ao longo dos 100 minutos de projeção, o filme abre e fecha, expande e detalha. A história se inicia com a jornada de descobrimento de Denise Dummont, filha do compositor, da figura do próprio pai. Gradativamente, o filme é ampliado: o rádio, o declínio do samba, o Brasil do pós-guerra, os fatores culturais que possibilitam o crescimento do baião. Aí, no dito popular, é pau na máquina: uma maratona de canções que conquista até o mais cético.

    Mas o cineasta não perde o fio da meada. Depois de expandir, ele centra novamente na figura de Humberto Teixeira, sua incursão na política, o machismo com a filha e as esposas. O mais encantador é que, apesar de musical, o filme não interessa apenas pelas canções. Sendo fã ou não de baião, é impossível não se conectar com a montagem esperta que foge do frenesi, mas dá agilidade à história.

    As imagens não são mero pretexto para mostrar as canções de Teixeira: elas têm significado, poesia e poder. Nessa tarefa, o cineasta Lírio Ferreira conta com a ousadia e inquietação dos enquadramentos do diretor de fotografia Walter Carvalho (Budapeste), que não aceita o óbvio ou mediano como satisfatório.

    Assim como uma sanfona que abre e fecha para ampliar ou encurtar as notas, O Homem que Engarrafava Nuvens expande e aproxima, ao tempo do baião, para contextualizar a música, Humberto Teixeira, o Brasil e o nordestino. É um filme antropológico, musical, euclidiano, popular, ágil e, acima de tudo, ousado.