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    O HOMEM QUE MATOU DOM QUIXOTE

    Por Sara Cerqueira
    27/05/2019

    Da idealização de um projeto até a chegada ao cinema, muita coisa pode acontecer. O processo de filme transforma a vida de diretores, roteiristas, atores e outras centenas de profissionais. Muitas vezes, esse trabalho todo se torna um grande inferno. Já o público, só vê por volta de 2 horas e fica alheio ao trabalho insano e demasiado longo de criação. Para o diretor Terry Gilliam (responsável pela obra-prima do humor Monty Python Em Busca Do Cálice Sagrado e Os 12 Macacos), as intempéries já são velhas amigas.

    O Homem Que Matou Dom Quixote foi idealizado inicialmente há 25 anos e, só agora, após problemas diversos como abandono do elenco, perda dos direitos autorais e doença do diretor, conseguiu ser finalizado. Um sonho do qual o cineasta não desistiu, mas que não saiu ileso.

    Aqui, testemunhamos uma obra que de tanto apelar à metalinguagem e à auto referência, acaba ficando um bocado cansativa. O cineasta Toby (Adam Driver) está passando por um bloqueio criativo. Sua superprodução Dom Quixote de La Mancha não consegue ir para frente e, mesmo com todas as ferramentas tecnológicas, CGI e dinheiro disponíveis, nada parece animá-lo. Após se recordar de seu primeiro filme criado ainda na faculdade (também sobre Dom Quixote), uma centelha criativa surge em sua mente, e ele parte em busca de seu velho elenco. O problema é que Javier (Jonathan Pryce), que interpretou Dom Quixote, enlouqueceu completamente e agora acredita ser o personagem.

    A partir daí, eles embarcam em uma aventura estranha e algumas vezes engraçada, mas errática e sempre ambiciosa demais. Além de refletir repetidamente durante todo o filme sua própria trajetória problemática como profissional (e a de tantos outros diretores, roteiristas e produtores pelo mundo), o longa tenta abraçar comentários políticos e sociais, como a atual situação dos imigrantes nos EUA, conservadorismo, conspirações e governo Trump; mas não o faz de maneira orgânica.
    Isso dentro de uma película cômica que mescla metalinguagem cinematográfica com fantasia e drama contribui, e muito, para o revirar de olhos depois da primeira hora de filme.

    A química entre Jonathan Pryce (famoso por seus papéis em Game of Thrones e no recente A Esposa) e Adam Driver (Infiltrado na Klan) é perfeita. Ambos conseguem trabalhar bem os meandres de fantasia e realidade e evocam a relação muitas vezes conturbada entre diretor e seu elenco. Entretanto, quem carrega o peso dramático do filme nas costas é Pryce. Seus delírios vorazes (mas totalmente ingênuos) simbolizam o impacto que o cinema causa na vida de pessoas comuns, acertadas em cheio pela beleza do faz-de-conta da sétima arte.

    Quem não queria, nem que fosse por poucos instantes apenas, adentrar universos fantasiosos tão comuns nas telonas e viver uma aventura, saindo da mesmice cotidiana? Tal abordagem é bem trabalhada, e o dom da interpretação de Pryce merece elogios.

    Assistir a O Homem Que Matou Don Quixote é um exercício interessante e engraçado (por um determinado tempo) sobre fazer cinema, criatividade artística e a pessoalidade de ambos os processos. Os passos de Terry Gilliam nessas duas décadas foram maiores que suas pernas, mas para o currículo de todo cinéfilo, é válida a experiência.