cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    O INVENTOR DE SONHOS

    Direção de arte, firulas técnicas e nada de história
    Por Roberto Guerra
    07/10/2013

    Há quem faça cara feia para a utilização da narração em off, ou voz off, no cinema. Para estes, filmes têm de contar suas histórias exclusivamente por suas imagens. Bobagem purista. O voz off é um recurso narrativo válido que, se bem utilizado, pode amplificar o significado e a força das imagens. De cabeça cito três bons longas que se valeram da fórmula: Os Bons Companheiros, Um Sonho de Liberdade e Amadeus.

    Agora vamos de extremo oposto: O Inventor de Sonhos, de Ricardo Nauenberg. O filme chega ao paroxismo da má utilização do voz off. O texto narrado não soma e sim disputa espaço com as imagens, que passam a ter papel secundário. Há não só a redundância entre o que se vê e o que seu ouve, mas também o recurso sendo usado para se explicar o que não se vê nem se entende, cobrindo o caminho esburacado deixado pelo roteiro.

    Quem narra sua história é José Trazimundo (Ícaro Silva), filho de uma escrava com um artista francês. O mestiço vive no Brasil do início do século 19, que presencia a chegada da família portuguesa fugida da invasão de Napoleão. O menino sonha em encontrar o pai desaparecido e a chegada da corte reacende suas esperanças - as poucas informações que tem dão conta de que o pai trabalhava para a nobreza. Não o acha, mas faz um amigo, Luis Bernardo (Miguel Thiré), filho de um duque que integra a comitiva do rei. A amizade é abalada quando passam a disputar o amor da mesma mulher (Sheron Menezes).

    O Inventor de Sonhos, nota-se logo, é um filme de contrastes. Filmado na cidade histórica de em Paraty, tem elogiável trabalho de direção de arte que faz reconstituição de época detalhista e convincente. Conta ainda com efeitos especiais que ajudam a recriar a efervescência do Rio de Janeiro da época por meio de panorâmicas aéreas da cidade. Pena, no entanto, que o trabalho perca seu efeito pela repetição exaustiva. Vez por outra entra a tomada da cidade vista de cima, sem necessidade, como que a reafirmar: "Olha o que nossa turma da computação gráfica foi capaz de fazer".

    O elenco é apinhado de atores tarimbados. Estão lá Luiz Carlos Vasconcelos, Ricardo Blat, Roberto Bonfim, Sérgio Mamberti, Emílio Orciollo Netto, entre outros. Nenhum deles, no entanto, consegue desenvolver a contento seus personagens. O filme é anêmico em diálogos e situações que permitam ao público perceber as dimensões psicológicas dos protagonistas. Preguiçosamente tudo é levado a toque de caixa e explicado pressurosamente pela narração em off.

    Há muitos outros excessos, como as firulas modernosas de edição e movimentos de câmera excessivos. Recorrentemente, por exemplo, corta-se de plano aberto para fechado (com fotografia granulada) e depois volta-se ao aberto com textura de imagem normal. O porquê disso? Sabe-se lá. Nada acrescenta à trama, nada modifica nas impressões do espectador. A trilha sonora incidental, por sua vez, é excessiva, onipresente e faz sua parte no espetáculo paralelo de exageros e escassez desse legítimo filme-pantomima.