cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    O JOGO DA IMITAÇÃO

    História inspiradora prejudicada por clichês de drama histórico
    Por Iara Vasconcelos
    30/01/2015

    Quem de nós nunca imaginou do que é formada a mente de um gênio? O que está entre os muros que separam um homem comum de um prodígio? Seria apenas uma questão de QI avançado ou alguma espécie de desígnio divino? O fato é que a sétima arte adora prestar tributos aos grandes gênios. De Amadeus a Andy Warhol, passando por Steve Jobs (Jobs) e John Lennon (O Garoto De Liverpool) até chegar no mais recente Stephen Hawking (A Teoria De Tudo).

    O Jogo da Imitação, novo longa de Morten Tyldum, é a prova viva de que essa não será a primeira e nem a última vez que o cinema tenta manusear de forma rentável e comovente a vida daqueles capazes de mudar o mundo por meio de feitos extraordinários.

    A trama, ambientada na Segunda Guerra Mundial, narra a trajetória de Alan Turing (Benedict Cumberbatch), cabeça por trás do projeto Ultra e considerado o pai da computação. Baseado na obra Alan Turing: O Enigma, de Andrew Hodges, o longa mostra como a máquina criada por ele conseguiu decifrar códigos de guerra nazistas e ajudou a levar a Alemanha à derrota.

    Para ambientar o espectador, o roteiro usa e abusa de artifícios como flashbacks da juventude de Turing, cenas apresentadas fora de ordem cronológica e frames de batalhas da Segunda Guerra e das invasões nazistas. E é através disso que conseguimos entender todo o background do matemático. Sua inaptidão social, os abusos sofridos na escola e um dos fatores mais importantes na trama: A descoberta de sua sexualidade.

    Se alguém já pesquisou sobre sua história, saberá que Turing foi condenado pelo crime de atentado ao pudor e à pena de castração química, recebendo o perdão real apenas em 2013. O que o filme, assim como vários relatos biográficos, sugere é que ele foi condenado por ser homossexual, o que era ilegal e passível de forte punição nos anos 40 – e ainda é em vários lugares do mundo. Turing manteve segredo sobre sua homossexualidade por muito tempo, mas a informação caiu nos ouvidos das pessoas erradas e ele foi denunciado por vingança.

    Apesar da pouca experiência em Hollywood, o cineasta norueguês Morten Tyldum aprendeu bem como jogar de acordo com as "regras" da academia. O bom desempenho de dramas históricos na premiação não deixa mentir e O Jogo da Imitação é o típico filme de Oscar, se apegando a diversos chavões característicos dos dramas. Os personagens são bem delineados, mas acabam se mostrando como uma caricatura dos clichês do gênero: O gênio perturbado, socialmente inapto, ostracizado e agredido na escola; A mulher poderosa que não hesita em desafiar as regras moralistas da sociedade da época, mas que acaba sendo veículo de união do grupo por sua ternura apaziguadora e "tipicamente feminina" – essa por conta de Joan Clark (Keira Knightley); O grupo de antagonistas que magicamente resolve que a união faz a força e se tornam amigos do gênio que consideram egocêntrico.

    O Jogo da Imitação está longe de ser extraordinário. A história de Alan Turing, assim como de Joan Clark e dos demais componentes do projeto Ultra, é inspiradora e o roteiro tem um potencial enorme de despertar a empatia dos espectadores e boas oportunidades de pontos de virada, mas tudo isso cai por terra com uma execução tão sisuda quanto o sotaque britânico de Cumberbatch e por vezes lembra um telefilme da BBC, ou até um episódio de Sherlock, com o qual divide o protagonista. Mas Tyldum sabe que o cinema também é feito de escolhas e sair do lugar comum e arriscar uma vaguinha nas principais premiações parece não ter sido a sua.