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    O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES

    Tim Burton resgata um pouco do estilo do passado
    Por Iara Vasconcelos
    27/09/2016

    A ficção é cheia de metáforas sobre pessoas com poderes especiais que as distanciam dos demais ao serem alvos de preconceito. Uma clara alusão àqueles que sofrem por serem fisicamente diferentes, ou por pertencerem a outra cultura ou ambiente. O primeiro exemplo que vem à cabeça são os mutantes do X-Men, acolhidos por professor Xavier em uma mansão, onde conseguem desenvolver suas habilidades.

    Assim, podemos dizer que O Lar Das Crianças Peculiares é como um X-Men para crianças. Assim como na trama dos quadrinhos, as crianças especiais se reúnem em um orfanato, que no caso é comandado pela durona, mas bondosa Srta. Peregrine, e lá aprendem como controlar seus poderes, além de se protegerem da hostilidade do mundo lá fora.

    Acontece que nem todos os peculiares são bondosos. Um grupo de dissidentes, liderado pelo performático vilão Barron (Samuel L. Jackson), desejam alcançar imortalidade. Graças a um experimento falho, eles acabam adquirindo uma aparência monstruosa e se tornando o que chamam de etéreos. Para se aproximarem da aparência humana, eles precisam se alimentar dos olhos de outros peculiares, principalmente crianças. Essa bizarrice fica por conta de Burton, já que no livro os etéreos se alimentam das próprias crianças.

    No início, o longa lembra muito o estilo de outras obras de Burton, como a sombriedade de Edward Mãos De Tesoura, aliada ao humor debochado de Os Fantasmas Se Divertem e o toque de heroísmo e fantasia de Peixe Grande E Suas Histórias Maravilhosas.

    Os personagens não são tão aprofundados quanto deveriam, mas o diretor opta por mostrar suas peculiaridades em prática, um recurso acertado diante da necessidade do cinema em ser mais preciso e poupar tempo. O grande problema da trama se encontra próximo ao desfecho. Apesar de construir bem a história do início ao meio, o roteiro perde força no final. O embate entre as crianças e os vilões não fornece nenhuma emoção, tudo parece fácil e corrido demais, como se o diretor precisasse se livrar logo daquele momento para conseguir encerrar o filme. Samuel L. Jackson continua interpretando a si mesmo, não importa em que papel esteja, e o vilão Barron chama mais atenção pela cafonice de suas falas do que pelo seu grau de maldade.

    Há algumas (muitas) mudanças em relação ao livro que não parecem ser justificadas. Como a troca de poderes de alguns personagens, - como Olive, que no filme tem o poder de fogo, mas no livro consegue voar - e a idade dos atores. Para aqueles que não leram o livro, esses detalhes não farão diferença, mas para os que leram será uma diferença tamanha e irritante.

    Algumas mudanças, entretanto, surgem para o bem. A Srta Peregrine – que ganhou um update daqueles, já que no livro está mais próxima da aparência da Babá McPhee, mas é interpretada pela musa Eva Green – está menos maternal e mais confrontadora. O confronto final também conta mais com a participação das crianças. A adaptação de Burton não parece deixar brechas para uma sequência, já que seu final também é diferente do apresentado no livro.

    Asa Butterfield se sai muito bem no papel de Jake, que honra o legado de seu avô e ajuda as crianças a se livrarem dos etéreos. Ele prova que chegou aquela fase em que não é mais um ator mirim, mas ainda não é cotado para papéis mais adultos. Mesmo nesse meio termo, é animador ver que ele não ficou apenas como "promessa" após estrelar A Invenção De Hugo Cabret.

    O Lar Das Crianças Peculiares talvez não faça jus ao livro – mas quase nenhuma adaptação faz – entretanto consegue resgatar um espírito de aventura e camaradagem que era bastante comum nos clássicos infanto-juvenis da década de 80, como Os Goonies e De Volta Para O Futuro. Isso não quer dizer que o filme consiga superar nenhum dos dois, mas sem dúvidas prova que Burton ainda consegue pensar fora da fórmula "caricata" que ele vem adotando em suas últimas produções.