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    O LOBO DE WALL STREET

    Filme hipnotiza público com degradação dos personagens
    Por Daniel Reininger
    21/01/2014

    Poucos diretores exploram personagens à margem da sociedade como Martin Scorsese. Em O Lobo de Wall Street, ele mergulha novamente nesse contexto e trata com bom humor o complexo tema de fraude na bolsa de valores. O grande mérito do filme é fazer isso de forma divertida, sem tentar explicar como aquilo tudo funciona e, mais importante, sem fazer juízo de valor.

    Baseado no livro de memórias de Jordan Belfort, a trama conta como o jovem corretor da bolsa de Nova York, interpretado por Leonardo Dicaprio, fez fortuna ao enganar clientes com métodos ilegais. O personagem é tão inescrupuloso a ponto de fazer Gordon Gekko, papel de Michael Douglas em Wall Street - Poder e Cobiça, parecer uma cara legal. Milionário aos 26 anos, a história de Belfort é uma montanha russa regada a drogas, prostitutas e muito dinheiro.

    Com o mesmo tema de Os Bons Companheiros, sem a parte da máfia, O Lobo de Wall Street está entre as melhores – e mais sombrias - comédias do ano. Vulgar em todos os sentidos e exagerado ao ponto do absurdo, o longa é uma reverência à decadência, no qual poder e ambição movem os personagens.

    Scorsese cria uma atmosfera capaz de captar o atrevimento do energético protagonista, com rápidos movimentos de câmera, cenas fortes e bem coreografadas. Tudo é visto pela perspectiva de Belfort e sua voz guia a ação, mesmo quando ele está no meio dela. Desta forma, o personagem impõe seu ponto de vista e, com monólogos direcionados ao espectador, expõe sua personalidade.

    Com 179 minutos, este é o filme mais longo de Scorsese, mas isso não significa que seja o mais ambicioso ou profundo. Falta dinâmica emocional, como acontece em Caminhos Perigosos ou na trama intrincada de Cassino. Como consequência, do meio para final o longa começa a ficar arrastado, com cenas repetidas e situações desnecessárias.

    O inspirado elenco compensa essa falha, especialmente DiCaprio, que se sobressai em sua quinta parceria com Scorsese. O ator se entrega totalmente, sem medo de improvisar. Essa liberdade faz com que crie o personagem mais autêntico e espontâneo de sua carreira. Além disso, Matthew McConaughey rouba a cena em sua breve aparição como Mark Hanna, tutor de Jordan. Ele basicamente ensina como ser babaca e seu único problema é sumir da tela rápido demais.

    Apesar das boas atuações, o cineasta exagera na objetificação das personagens femininas. Com exceção de tia Emma (Joanna Lumley), as mulheres só estão na tela por sua beleza, isso quando não interpretam prostitutas de fato. A atriz Margot Robbie até tenta passar credibilidade como segunda esposa de Jordan, porém o papel não ajuda. De certa forma faz sentido para a trama, afinal a história de Scorsese é sobre homens cheios de testosterona, mas cansa ver as garotas desse microcosmo limitadas a servir, agir como vítimas ou seduzir por interesse.

    Como um show de horrores do qual é impossível desviar o olhar, O Lobo de Wall Street hipnotiza o público com a degradação dos envolvidos. Não importa se Scorsese aprova ou não as ações de Belfort, é o espectador que precisa fazer sua própria reflexão. O longa pode não ter a sutileza ou riqueza de outros trabalhos do cineasta, mas deixa sua marca pela intensidade e diversão.

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