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    O LUTADOR

    Por Heitor Augusto
    13/02/2009

    "É muito doloroso quando você não consegue mais fazer algo que conseguia e quem percebe isso não é você, mas outra pessoa que vem te dizer. Sim, posso fazer um paralelo entre esse filme e minha carreira, que joguei fora há 15 anos. E só posso culpar a mim mesmo". A melancólica afirmação é de Mickey Rourke, protagonista de O Lutador, ator que se firmou na década de 80 e tomou alguns rumos, no mínimo, estranhos nos anos 90.

    O longa é um dos casos em que vida real e ficção se misturam. A trajetória de Rourke guarda incríveis semelhanças com seu personagem. Talvez por isso mesmo que O Lutador tenha uma capacidade imensa de cativar o espectador e agarrá-lo para perto do anti-herói Randy "Ram" Robinson, o tal lutador do título. Ou talvez pela universalidade da história de um homem que se devotou a apenas uma coisa durante toda a vida e se vê perdido quando o fim da linha chega cada vez mais perto.

    Passado e presente se justapõem. O glamour se foi e o que resta agora é sobreviver. Óbvio que Randy continua nos ringues, afinal ele é o lutador, mas o tempo não deixa de mostrar sua força. Ele duela com a vida, quer mostrar que pode domá-la. Porém, ela é mais forte, lógico, mas Randy não aceita sair derrotado. Nem que o confronto termine empatado. Mesmo um título que pressupõe disputa física, os trechos mais interessantes do filme estão justamente fora do ringue ou longe das peripécias dos wrestlers de mentirinha, aqueles que combinam os golpes antes da luta com o propósito de levar o público ao delírio.

    O Lutador é um drama que assim merece ser chamado. Uma espécie de primo em segundo grau de Rocky - Um Lutador por apresentar um homem desajeitado para tudo, exceto para lutar, e sobrinho de Rocky Balboa (o sexto da série), por nos mostrar um homem que precisa provar para si próprio que pode ir além. Mas o roteiro de Robert D. Siegel não é sobre um filme de luta e não há nenhuma canção edificante como Gonna Fly Now. Ao modo de Menina de Ouro ou Touro Indomável, que trazem personagens que buscam a última chance ou problemáticos fora das cordas, o longa dirigido por Darren Aronofsky (Réquiem Para um Sonho) arrebata o espectador com códigos poderosos para uma geração - mesmo que utilize alguns clichês.

    Randy é um anti-herói, uma montanha de músculos frágil como um bebê, que precisa de óculos para enxergar as letras pequenas ou de um aparelho auditivo para combater a surdez. Sem dificuldades, levanta outra montanha de músculos e arremessa a metros de distância, mas não consegue sequer lembrar-se da data em que marcou um jantar com a filha, talvez o último.

    "Pô, os anos 80 são demais. Guns n' Roses são o máximo... Pena que veio o Kurt Cobain e estragou tudo!". Essa frase não foi dita por Mickey Rourke, mas pelo seu personagem. Porém, vida e obra novamente se misturam. Depois de surgir como o rostinho bonito dos anos 80 e ficar famoso em Nove Semanas e Meia, o ator voltou a lutar boxe nos anos 90 (havia praticado na adolescência) e teve de fazer cirurgias plásticas para corrigir as porradas que levou. Agora, cerca de 20 anos depois, parece voltar aonde parou nos anos 80. Só vai ter de alterar a canção-tema de Sweet Child O'Mine, do Guns, para algo como Rehab, de Amy Winehouse.